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CAARAPÓ - MS, sábado, 13 de agosto de 2022


Parentalidade distraída: a gravidade em trocar a atenção aos filhos pelas telas digitais

Parentalidade distraída: a gravidade em trocar a atenção aos filhos pela atenção às telas

Publicado em: 04/08/2022 às 15h43

Sempre Família

As crianças necessitam de interação para se desenvolver. Conversar com a criança, conectar-se afetivamente com ela por meio da gestualidade corporal e brincar com ela são fatores fundamentais para o desenvolvimento de habilidades psíquicas, cognitivas e sociais. Agora, já imaginou o que acontece se uma criança passa boa parte da sua infância sem a atenção desses contatos, porque os seus pais não tiram os olhos dos smartphones quando estão com ela? Esse fenômeno tem sido chamado de parentalidade distraída.

O celular parece um recurso fácil, mas não é inofensivo”, diz a psicóloga Carolina Flores, do Centro de Terapia Cognitiva, que aponta também que, com a popularização do home office devido à pandemia, o risco de uma parentalidade distraída se tornou maior. “Quando a criança está na fase de adquirir a habilidade da linguagem verbal, é na relação com as pessoas à sua volta que isso acontece. Se a comunicação é constantemente interrompida pelas telas, isso prejudica o seu desenvolvimento”.

O impacto se alastra por uma série de problemas. Carolina aponta que a criança tem dificuldade de se sentir segura, de estabelecer uma conexão confiante com o cuidador. Com crianças maiores, o prejuízo pode se dar na comunicação entre os pais e os filhos, criando distanciamento na relação. Além de um mal em si mesmo, isso pode dar ocasião para o envolvimento das crianças em situações de risco, já que ela deixa de compartilhar com os pais os acontecimentos do seu dia a dia.

Além disso tudo, a parentalidade distraída acaba configurando uma relação tóxica das crianças com as telas. “A forma como os filhos aprendem a usar os eletrônicos vêm dos pais. Quando o adulto tem uma relação não saudável com a tela, as crianças ficam em risco também”, indica Carolina. “É preciso ampliar a consciência de que esse uso abusivo das telas prejudica todo mundo: o adulto, a criança, a relação entre pais e filhos, a relação com outras pessoas”.

Falha no dever parental


A parentalidade distraída é tão grave que seria algo até mesmo passível de judicialização, ainda que, pela sensibilidade diante do tema, o melhor caminho para resolver o problema não seja esse. É o que aponta a pesquisadora Letícia Prazeres, mestra em Direito e professora da Idea Escola de Direito.

“Quando a gente fala de abandono afetivo, a gente costuma pensar na falta do sentimento do amor, do carinho, e não se trata necessariamente apenas disso. No caso da parentalidade distraída, deixa-se de prestar o devido cuidado em prol da atenção à tela. E o cuidado é um dever imaterial do pai para com os filhos”, diz Letícia. “Assim, algo que parece pequeno pode causar consequências muito sérias. A importância de se falar da parentalidade distraída é que se trata de uma quebra relacional que impacta as crianças em âmbito biopsicossocial”.

Detox digital pode melhorar o comportamento do seu filho

Irritabilidade, problemas de socialização, dificuldade para lidar com a frustração, insônia e alterações no padrão de alimentação. Essas são algumas das possíveis mudanças de comportamento devido ao uso excessivo de telas por crianças e adolescentes. E o acesso aos dispositivos móveis se tornou ainda mais frequente com a pandemia da Covid-19, trazendo as aulas online para os mais jovens, e impossibilitando as saídas para brincar fora de casa.

Segundo a pesquisa Primeiríssima Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, mais crianças assistiram a vídeos durante a pandemia. A análise aponta que a frequência diária do uso de TVs ou dispositivos eletrônicos pelas crianças cresceu em torno de 40%, chegando a 60% entre a classe D. O estudo também mostrou o tempo que elas ficaram em frente às telas por dia, durante a pandemia: as respostas mais frequentes foram de até uma hora e também de uma a duas horas.

A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é evitar exposição de crianças de menos de 2 anos às telas e também limitar o uso entre crianças de 2 a 5 anos a no máximo uma hora por dia. Dessa forma, um detox digital pode ser uma opção caso os pequenos ultrapassem esse limite recomendado. A especialista em Neurociência Comportamental Infantil e idealizadora da Educação NeuroConsciente, Telma Abrahão, explica haver alguns sinais de quando há a necessidade de um detox de telas. “Quando começa a apresentar maior irritabilidade, agressividade, falta de interesse em socializar, sair de casa ou participar de outras atividades que não sejam as telas”, destaca.

De acordo com Telma, há alguns problemas com o uso excessivo de tecnologia. Caso seja uma criança pequena, pode afetar o desenvolvimento motor, pela falta de movimentação no corpo, e causar atraso na fala, por conta da falta de conversa com outras pessoas. “Além disso, pode prejudicar a socialização e o desenvolvimento de habilidades como a autorregulação, que é a capacidade de lidar com as próprias emoções. Nos adolescentes pode causar isolamento, problemas de relacionamento, autoestima e até depressão”, exemplifica.

Detox é benéfico a toda a família


Daiane Santos Cordova tem dois filhos, o Guilherme com 13 anos e a Marina com 5. Eles usam com frequência os dispositivos móveis. Porém, às vezes, Daiane faz um detox digital com eles. “Percebo que os dois perdem o foco em algumas atividades e têm alteração no sono. Eles deixam de ter vontade de realizar outras brincadeiras, ficam esquecidos e entediados, se irritam fácil e todas as outras coisas perdem a graça”, comenta a assistente administrativa. Ela percebe alguns benefícios desse detox digital. “Eles voltam a realidade, brincando mais com seus próprios brinquedos e interagem mais em casa”, conta.

A orientação aos pais é de sempre supervisionarem o que os filhos estão assistindo na televisão ou celular. Além disso, esse detox digital pode trazer vários benefícios a toda a família. “A criançada tem mais tempo de exercitar a criatividade e o aprendizado. Até mesmo a possibilidade de assumir responsabilidades no dia a dia, como organizar o material de estudo e arrumar o próprio quarto. Com o passar dos dias, ficará nítido no comportamento da criança e do adolescente o benefício disso”, diz a psicóloga e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, Simone Nosima.

Para ajustar o tempo com os dispositivos móveis, os pais precisam conversar com a criança e também mostrar as vantagens de ficar um pouco fora do mundo online. Simone recomenda dar exemplos dos problemas do uso excessivo dos celulares e buscar programas interessantes para os filhos. “Traga possibilidades de atividades longe do digital e dê recursos para que a criança tenha tempo de qualidade no seu cotidiano que não envolvam telas. Não é só proibir, é ajudar a encontrar um mundo novo, repleto de possibilidades e criatividade”.

Mostrar essas possibilidades também é benéfico para que a criança ou o adolescente consiga perceber as mudanças em seu comportamento. “Não espere a criança ou o adolescente aceitar essa nova rotina. É preciso que os pais tenham entendimento do que é necessário. E após alguns dias, retome a conversa e mostre as mudanças positivas que aconteceram com a diminuição da exposição ao digital”, aconselha Simone.