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CAARAPÓ - MS, sábado, 29 de janeiro de 2022


Em parceria com os EUA, MS quer desenvolver fertilizantes com resíduos orgânicos

Projeto será desenvolvido em dez anos e usará matérias-primas como o tabaco apreendido pela Receita Federal e resíduos de mandioca

Publicado em: 03/01/2022 às 07h03

Rodolfo César

O problema envolvendo a carência de fertilizantes para a produção agrícola no Brasil é grave e neste segundo semestre gerou discussões no Congresso Nacional e pressão sobre a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.

Até começo de novembro, entre 10% a 20% de produtos estavam em falta no mercado para a próxima safra, sendo que o produto chega a representar até um terço do custo operacional nas plantações de soja e milho, que são cultivados no Estado, por exemplo.

Com esse cenário de incertezas, parceria firmada entre o Laboratório de Pesquisa em Pastagem, do Serviço de Pesquisa Agrícola Norte-Americano (USDA-ARS) e unidade de Mundo Novo da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, firmada em 7 de dezembro deste ano, pretende desenvolver estudos para a criação de fertilizantes com o objetivo de combater esse períodos de escassez.

Ao mesmo tempo ofertar no mercado opções organominerais. A pesquisa, programada para acontecer ao longo de 10 anos, será desenvolvida em Mundo Novo e em El Reno, no estado de Oklahoma (EUA), em uma área de 5 mil m².

A execução prática da proposta vai recorrer a resíduos da avicultura e ovinocultura, resíduos da agroindústria de processamento de mandioca e de resíduos também de origem animal.

Os pesquisadores pretendem ampliar a matéria-prima e por isso vão utilizar neste trabalho o tabaco que acaba sendo apreendido em ações da Receita Federal do Brasil.

Os cientistas brasileiros e estadunidenses conseguiram alinhar o mesmo tipo de pesquisa para avaliar a viabilidade no uso desses diferentes resíduos.

Essa pesquisa vai identificar, ainda, os efeitos na qualidade física, química e biológica do solo, a produtividade das culturas agrícolas e os impactos na emissão de gases do efeito estufa e a estocagem de carbono no solo, o chamado sequestro de carbono.

Antes de esses produtos finais estarem preparados para comercialização, tudo será testado em áreas experimentais em ambos os países. Em Mundo Novo (MS), o solo tem textura arenosa e vai permitir dois cultivos comerciais ao ano.

Outra característica apontada pelos pesquisadores é que a característica do solo brasileiro onde a pesquisa vai ser desenvolvida tem altitude média de 270 metros e relevo moderadamente ondulado, com declividade de 8% a 20%.

A região de teste nos Estados Unidos ocorrerá no estado de Oklahoma(EUA), que tem destaque na agricultura daquele país, com plantações de tabaco, cana-de-açúcar e arroz.

“Existe a preocupação de avaliar os efeitos da substituição dos fertilizantes minerais por fertilizantes organominerais, principalmente no que tange a melhoria da qualidade dos solos e o seu impacto na emissão de gases de efeito estufa."

"Além disso, atualmente passamos por uma crise no fornecimento de fertilizantes minerais, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, o que torna mais interessante o estudo de fontes alternativas de fertilizantes em condições edafoclimáticas distintas”, explica um dos integrantes do grupo de pesquisa de Mundo Novo, professor doutor Tiago Zoz.

PARCERIA

A parceria com os Estados Unidos surgiu porque Zoz tem desenvolvido alguns projetos, desde 2015, com o pesquisador Travis Witt, que é do Laboratório de Pesquisa em Pastagem do USDA.

O cientista estadunidense já veio para o Brasil acompanhar o sistema de agricultura brasileira, em Mato Grosso do Sul.

“Durante três meses foram debatidas ideias entre os pesquisadores de ambos os países até que se chegasse a um projeto robusto."

"Esta parceria também tem outros aspectos positivos, podendo-se ressaltar aqui um destes que é o fortalecimento de uma proposta de Programa de Pós-Graduação nível mestrado e doutorado na área de Ciências Ambientais que será enviada à CAPES no próximo ano, 2022”, ressalta o professor doutor na UEMS e integrante do grupo de pesquisa, Leandro Marciano Marra, também gerente da unidade da UEMS de Mundo Novo.

A possibilidade de desenvolvimento de fertilizantes em substituição aos modelos minerais tradicionais tem o impacto em uma política que Mato Grosso do Sul está vendendo para o país sobre a preocupação com a emissão de gás carbônico e transformar a federação em “Carbono Neutro” até 2030.

A unidade da UEMS em Mundo Novo vai instalar laboratório que estudará esse setor, com repercussão para atender propriedades rurais no Brasil e no Paraguai. A temática de sequestro de carbono faz parte de uma etapa mais avançada da pesquisa, o que deve permitir a utilização do novo laboratório.

Essa estrutura começará a ser montada no sul do Estado em 2022. Ao longo de todo o projeto a ser desenvolvido em uma década, a meta é obter resultados que evidenciam cientificamente o efeito comercial positivo desses produtos.

Depois disso, os fertilizantes serão patenteados pelos pesquisadores.

“Esta parceria é muito importante para o avanço dos estudos com fertilizantes organominerais nos Estados Unidos, principalmente no que tange a qualidade dos cultivos."

"Além disso, a crise no mercado de fertilizantes também ocorre nos Estados Unidos, e o uso de fertilizantes organominerais se apresenta como uma alternativa interessante”, constata o pesquisador estadunidense Travis Witt, que virá para o Brasil, pelo menos, a cada dois anos para discutir com os brasileiros os resultados que foram alcançados e haver troca de conhecimento com estudantes da pós-graduação da UEMS.

Por conta do potencial de retorno e nível de inovação, os pesquisadores brasileiros apontam que haverá diferentes linhas de financiamento que serão lançadas em estágios específicos da parceria.

AGROINDUSTRIAS

Empresas agroindustriais de Mato Grosso do Sul, produtores rurais e agências de fomento de atividades de pesquisa estão nessa linha de patrocinadores. Não foi divulgado valores que serão necessários para esse trabalho de longo prazo.

“Considerando a abrangência da pesquisa, financiamentos do governo americano e outras fontes internacionais estarão em pauta e serão objeto de contínua apreciação pela equipe executora. "O investimento previsto é variável e dependerá de demandas específicas e pontuais, além de ser dependente das ações desenvolvidas anualmente”, explica Leandro Marra.

O grupo de pesquisadores brasileiros envolvidos nesse trabalho ainda é formado por Leandro Fleck, Selene Cristina de Castilho e Jean Rosset, todos da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul(UEMS).

“Experimentos de média e longa duração como esse conferem resultados precisos não somente sobre o potencial produtivo das culturas com a utilização das diferentes fontes de fertilizantes, mas também trazem resultados confiáveis sobre o potencial de armazenamento de carbono do solo anualmente”, detalha Jean Rosset.