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CAARAPÓ - MS, segunda-feira, 17 de janeiro de 2022


Por criticar agronegócio em aula, professora de Geografia arruma problemas com os pais

Fetems, SED e prefeitura de Bonito afirmam que caso é investigado para que devidas providências sejam tomadas

Publicado em: 17/12/2021 às 06h35

Guilherme Correia

Professora de Geografia da Escola Estadual Bonifácio Camargo Gomes, em Bonito (MS), município a 297 quilômetros da Capital, foi gravada por uma aluna, do nono ano, que se sentiu ofendida após críticas feitas ao agronegócio. Segundo denúncia feita pela Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, a PM (Polícia Militar) chegou a ser acionada, posteriormente.

De acordo com a representante regional da organização, Luciana Costa, que não divulgou nome da profissional de educação, a aula ocorreu em 19 de outubro e tratava sobre sucessões ecológicas, não degradação e proteção ao meio ambiente da região, cujo ecoturismo é referência no Brasil e no mundo.

No dia seguinte, ela foi chamada pela direção do colégio e informada que a aula havia sido registrada. A rede de organizações e movimentos educacionais afirma que o pai da estudante denunciou a docente ao prefeito da cidade, Josmail Rodrigues (PSB), que solicitou explicações à escola sobre o conteúdo, via Secretaria Municipal de Educação.

A reesponsável afirmou que, na semana seguinte, a PM foi até a escola, a partir de denúncia feita na pasta municipal. "A professora passou por um processo de intimidação durante essas semanas, com alunos gravando suas aulas e ameaçando, e nenhuma providência ainda foi tomada pelo poder público".

Segundo a Campanha, a ligação para o órgão policial ocorreu após orientação do vice-prefeito do município, Juca Ygarapé (PL). Um dos militares teria participado de uma reunião na escola, junto à direção e a família da aluna.

No entanto, a participação de ambos foi negada pela prefeitura de Bonito. Por meio de nota, o Executivo municipal afirma que prefeito e o vice-prefeito "jamais interferiram na administração pedagógica e administrativa da escola", por se tratar de uma unidade estadual.

Além disso, diz também que, ao tomar conhecimento dos fatos, a gestão pública municipal solicitou encaminhamento imediato à SED (Secretaria Estadual de Educação) de Mato Grosso do Sul, para "procedimentos que julgarem necessários".

A mídia questionou a pasta vinculada ao governo do Estado de MS, que disse estar ciente do caso e o acompanha, por meio da CRE-7 (Coordenadoria Regional de Educação de Jardim), que "trabalha com orientações sobre os procedimentos necessários desde o último dia 8 de dezembro, data do ocorrido na referida unidade escolar".

Nesta data, a professora solicitou por duas vezes que os alunos guardassem os celulares. Na terceira, falou com a estudante que gravou a aula, anteriormente, mas saiu da sala sem autorização. No final da aula, a professora foi informada que a PM estava na escola, a pedido da família da estudante, sob alegação de que a professora coagiu a aluna.

A reportagem também indagou a PM sobre o ocorrido, mas não foi respondida até fechamento da matéria. Foi questionado se a ação realmente aconteceu e quais denúncias poderiam ter levado policiais a estarem na unidade de ensino.

Em entrevista ao jornal Joio e o Trigo, que tornou público o caso, a presidente do Simted (Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação), Maria do Carmo Drumond, disse que o assunto teria de ser tratado pela Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação do Mato Grosso do Sul).

O presidente da Federação dos professores, Jaime Teixeira, confirmou o caso à imprensa e disse que a situação não é novidade em território sul-mato-grossense, já que outros docentes relatam ter seus direitos ameaçados por conta de censura. Além disso, ele ressalta que o caso é monitorado e que as "devidas medidas jurídicas" serão tomadas.

Teixeira explica que situações parecidas aconteceram em Nova Alvorada do Sul, em um colégio de Campo Grande e em Aquidauana. "Estamos monitorando. Todos eles, é a mesma questão, o policiamento da cátedra dos professores, querer botar censura no professor. Muitos casos semelhantes, é uma coisa articulada e está no Brasil inteiro".

"Antes disso, tem tudo a ver com a Lei da Mordaça, Lei da Escola Sem Partido, arquivada no Congresso Nacional por ser inconstitucional, e tem a ver com a polarização dos negacionistas em relação à educação", completa.

No País, gravar aulas de professores e intimidar a liberdade de cátedra dos docentes são ilegais, conforme o artigo 5 da Constituição Federal e a LFB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação).

Aula - De acordo com a denúncia, o pai da estudante chegou a dizer que se sentiu prejudicado e que a professora havia menosprezado o agronegócio, além de mencionar que a docente é casada com um indígena.

Na rede social Instagram, um perfil de humor compartilhou uma resposta de um seguidor que dizia "tem prof [de] geografia fazendo militância nas escolas, falando mal das empresas daqui e do agronegócio”. A publicação foi feita na semana passada e não se encontra mais disponível na página.