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CAARAPÓ - MS, quinta-feira, 18 de agosto de 2022


Cinquenta e dois pesquisadores da Capes anunciam renúncia coletiva por falta de apoio

Esses cientistas afirmam que não têm conseguido trabalhar seguindo padrões acadêmicos. Segundo eles, a Capes não defende mais avaliação dos programas de pós-graduação

Publicado em: 30/11/2021 às 06h44


Cinquenta e dois pesquisadores ligados à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes) anunciaram renúncia coletiva de suas funções na diretoria de avaliação do órgão. Esses cientistas afirmam que não têm conseguido trabalhar seguindo padrões acadêmicos. Também dizem que a Capes não tem atuado para defender a avaliação dos programas de pós-graduação, suspensa em setembro pela Justiça, e que há uma "corrida desenfreada" para abertura de novos cursos de pós a distância.

A Capes é uma agência de fomento à pesquisa, ligada ao Ministério da Educação (MEC), que tem como missão avaliar os cursos de pós-graduação no Brasil e divulgar informações científicas. Desde abril deste ano, a Capes é presidida pela reitora do Centro Universitário de Bauru, Claudia Mansani Toledo.

Os pesquisadores que pediram renúncia de suas funções são das áreas de matemática e física, porém não pediram demissão do serviço público federal. Para conduzir as avaliações dos cursos de pós, são montadas comissões em cada uma das áreas do conhecimento. Há 49 áreas de avaliação na Capes. Em cada uma delas, são convocados, por meio de um processo público, três coordenadores que trabalham pro-labore em um mandato de quatro anos. Esses coordenadores, por sua vez, contratam consultores especialistas em suas áreas.

Na área de matemática/probabilidade e Estatística, além dos três coordenadores, havia 28 consultores. Na área de astronomia/dísica, eram os três coordenadores e 18 consultores. Todos eles pediram renúncia da função, porém continuam servidores públicos. Com isso, as áreas de matemática, física e astronomia da Capes ficam sem pesquisadores para avaliação dos programas de pós, e a Capes terá de reestruturar as equipes que fazem a avaliação nessas duas áreas. Procurado sobre como conduzirá esses processos, o órgão ainda não se manifestou.

"Gostaríamos de poder trabalhar com previsibilidade, respeito aos melhores padrões acadêmicos, atenção às especificidades das áreas e, principalmente, um mínimo respaldo da agência. Tais condições não têm se verificado nos últimos meses", afirmam os pesquisadores da Matemática que assinam um dos documentos, divulgado na segunda-feira, 29.11.

A função desses pesquisadores é definir a nota de cada um dos programas de pós-graduação na avaliação quadrienal conduzida pela Capes. A cada quatro anos, a Capes avalia esses cursos em todo o Brasil. Essa avaliação é crucial para monitorar as pós-graduações — a avaliação pode levar, por exemplo, ao descredenciamento de instituições que deixam de atingir os critérios de qualidade. Também serve de parâmetro para a liberação de bolsas de pesquisa.

Em setembro deste ano, uma decisão da Justiça Federal suspendeu a avaliação quadrienal da Capes, sob justificativa de que houve mudança na forma de aplicação dos critérios de ranqueamento dos cursos de pós-graduação. O cronograma da Capes previa a divulgação dos resultados entre o fim de dezembro e início de janeiro do ano que vem.

Para os pesquisadores que pediram renúncia da função, mas não demissão do serviço, não houve vontade da Capes em defender a retomada da avaliação. "Isto ficou patente nas várias manifestações da presidência e contrasta fortemente com os posicionamentos favoráveis à retomada da avaliação vindos de diversas entidades", escrevem os coordenadores da Matemática.

"Chama-nos a atenção que a recente tentativa de suspensão da liminar tenha sido apresentada pela Capes sem qualquer urgência, apenas depois de dois meses", continuam os pesquisadores. Para o grupo, "é quase impossível" que a avaliação quadrienal seja retomada em um futuro próximo. "Tampouco nos é evidente que a avaliação, se de fato ocorrer, atenderá aos padrões de qualidade que a área preconiza."

Os pesquisadores também criticam o edital de abertura de novos cursos, em meio à paralisação da avaliação quadrienal. Segundo Roberto Imbuzeiro, um dos coordenadores que assina o ofício de renúncia na área da Matemática, a avaliação deveria preceder a abertura de novos cursos. "Não temos tido abertura de cursos novos há anos, mas a avaliação (quadrienal) é que forneceria subsídios para avaliar novos programas também. Temos de comparar os novos com os que já existem."

Conforme Imbuzeiro e outros coordenadores, a Capes também pediu que o grupo refizesse a regulamentação do ensino a distância na pós em um prazo de dois dias. "No entanto, estabelecer parâmetros para a expansão com qualidade do EaD não é tarefa para uns poucos dias de trabalho", escrevem, na carta. Os pesquisadores pontuam, ainda, que o EaD não é a modalidade de ensino dos melhores programas de pós- graduação no mundo.

"Meu medo é que sejam tomadas atitudes que, em vez de prezar pela qualidade da pós-graduação, sejam atitudes em prol da quantidade (de cursos), para universidades abrirem programas sem tantos critérios, abrirem programas a distância.

Em um ofício de renúncia de função, enviado pelos pesquisadores da Física à presidente da Capes aponta que, nos últimos dias, o grupo tem assistido a uma "corrida desenfreada para que se cumpra um calendário de ajuste dos documentos de APCN (Análise de Propostas de Cursos Novos) para cursos EaD a um formulário que, com o argumento de atender a portarias recentes, não contempla as particularidades de todas as áreas".

Segundo os pesquisadores da Física, a pressão feita para que se cumpra o calendário "não aponta na direção da promoção da qualidade" na pós-graduação. "Isso é inédito. Antes, poderia sair um ou outro pesquisador, mas demissão em bloco nunca teve", diz Alberto Vazquez, coordenador da Física que pediu renúncia de suas funções na Capes. Professor da Unicamp, Vazquez também defende que a abertura de novos cursos também ocorra depois da avaliação quadrienal.