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CAARAPÓ - MS, terça-feira, 7 de dezembro de 2021


Renda dos servidores públicos avançou 8% entre 2012 e 2021, com inflação de 115,6%

Pandemia provoca queda de 3,4% no rendimento médio real em 2020, e participação do trabalho diminui, mas a inflação no período foi de 115,63%

Publicado em: 20/11/2021 às 06h47

Bernardo Lima

O rendimento médio mensal real do brasileiro teve queda recorde de 3,4% em 2020, durante o auge da pandemia do novo coronavírus, atingindo seu menor valor desde 2012. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Com a pandemia, o rendimento mensal médio real de todas as fontes caiu de R$ 2.292, em 2019, para R$ 2.213 em 2020. Esse é o menor valor registrado pela série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada há oito anos.

A maior parte das fontes de renda registrou queda. A mais intensa foi notada entre as chamadas “outras fontes”, que englobam aposentadorias, pensões e aluguéis. No caso dos aposentados e pensionistas, o IBGE atribuiu parte da redução ao aumento da mortalidade entre idosos na pandemia. “Pode ser efeito da mortalidade da covid-19, mas também de um represamento do INSS em liberar os benefícios, porque as agências de atendimento estavam fechadas, as pessoas não conseguiam fazer perícias”, ponderou Alessandra Scalioni Brito, analista do IBGE.

Com a crise sanitária e econômica, o total de pessoas que mantinha algum rendimento do trabalho recuou de 92,8 milhões para 84,7 milhões, uma redução de 44,3% para 40,1% da população. Já o rendimento médio mensal habitualmente recebido do trabalho registrou aumento em 2020 por conta de um efeito estatístico. Com a saída de 8,1 milhões de pessoas do mercado de trabalho, em conseqüência do desemprego recorde, a média dos ganhos dos que permaneceram trabalhando subiu. Isso ocorreu porque a maioria das pessoas que perderam o emprego recebia rendimentos mais baixos; assim, a média acabou aumentando. A taxa média de desemprego no ano de 2020 foi de 13,5%, a maior da série iniciada em 2012. Em 2019, foi de 11,9%.

A Pnad revelou, ainda, que o número de pessoas que recebiam “outros rendimentos” subiu de 16,4 milhões, em 2019, para 30,2 milhões, em 2020, com um aumento de 6,5%. O crescimento é explicado pelo grande contingente de pessoas que passou a receber o Auxílio Emergencial, benefício criado pelo governo para socorrer as pessoas que se viram sem dinheiro para prover o próprio sustento em consequência do desemprego e das restrições impostas pelo combate à pandemia, como o isolamento social.

Com a redução da participação da renda vinda do trabalho, o rendimento proveniente de outras fontes (28,3%) e de outros rendimentos (14,3%) cresceu e bateu recorde. Entre os dois indicativos o crescimento mais expressivo foi o da proporção de pessoas com outros rendimentos, que foi de 7,8% em 2019 para 14,3% em 2020.

Em comunicado, o IBGE destacou que “a tendência de aumento do peso do rendimento de outras fontes e redução da parcela correspondente ao rendimento do trabalho, observada entre 2019 e 2020, ocorreu em todas as grandes regiões”.

A região Sul registrou o maior percentual (46%) de pessoas com rendimento habitualmente recebido do trabalho. Enquanto isso, o Nordeste teve o pior desempenho nesse quesito, com 32,6% de pessoas com rendimento recebido do trabalho — percentual inferior ao das que sobreviviam com recursos de outras fontes (32,8%), um indicativo do peso que as diferentes formas de auxílios e benefícios assumiram para a população local.

De acordo com a Pnad, o maior valor do rendimento médio mensal real foi percebido no Sudeste (R$ 2.575). O menor, no Nordeste (R$ 1.554). Por outro lado, o Sudeste também foi o que registrou maior queda nesse quesito (-4,7%); já no Sul (-4,3%) o recuo foi mais intenso que a média nacional. O Centro-Oeste (-3,3%) acompanhou a média do país; a região Norte, por sua vez, registrou estabilidade do indicador, enquanto o Nordeste apresentou aumento de 1%.

Ricos ganham 35 vezes mais que os mais pobres

Apesar de o índice de Gini, usado para medir a desigualdade social, ter caído em 2020, a parcela de 1% da população que tem os rendimentos mensais mais elevados recebe, em média, 34,9 vezes mais do que a metade mais pobre da população. Os dados, divulgados ontem, fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com o levantamento, a renda mensal dos que fazem parte do 1% mais rico da população é, em média, R$ 15.816. Já o rendimento mensal dos 50% mais pobres é de R$ 453, ou seja, cerca de 35 vezes menor. Em 2019, a diferença entre as rendas era ainda maior, de 40 vezes, a mais alta da série estatística.

A ligeira queda na concentração de renda se deveu, principalmente, à distribuição do Auxílio Emergencial durante a pandemia da covid-19. “Entre 2019 e 2020, a desigualdade medida pelo Índice de Gini se reduziu em todas as regiões, sobretudo no Norte e no Nordeste, regiões com maior proporção de domicílios recebendo Auxílio Emergencial”, indicou o IBGE.

De 2019 para 2020, o índice passou de 0,544 para 0,524. Essa foi a maior queda da série histórica do indicador. O indicador, adotado como critério internacional, mede a concentração de renda e o nível de desigualdade entre membros da sociedade. Quanto mais próximo de zero é o índice, menos desigual é o país.

“Houve uma piora do mercado de trabalho. Muita gente perdeu a ocupação, mas o Auxílio Emergencial segurou quem tinha rendas domiciliares menores. Isso tornou a distribuição de renda do país menos desigual”, destacou Alessandra Scalioni, analista da pesquisa.

O diretor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Social, Marcelo Neri avalia que o auxílio emergencial pode ter sido generoso, proporcionando uma “melhora fugaz” nos indicativos sociais, mas não foi implantado de forma sábia: “Acho que esse é um efeito limitado. Não investimos em um aprendizado ou projeto para saber o que fazer agora nesse processo de saída do auxílio emergencial”.