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CAARAPÓ - MS, quinta-feira, 20 de janeiro de 2022


Olimpíadas de Tóquio devem ser novo marco na luta por igualdade entre humanos

Com carta Olímpica mais branda, Tóquio pode representar marco em posicionamentos de competidores

Publicado em: 23/07/2021 às 07h21

João Marques - CB

Os Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968, ficaram marcados por um gesto emblemático: os velocistas estadunidenses Tommie Smith e John Carlos, respectivamente medalhas de ouro e bronze nos 200 metros, subiram ao pódio descalços, baixaram a cabeça e ergueram o punho cerrado. A referência aos Panteras Negras foi um protesto silencioso contra a segregação racial e se tornaria um símbolo do esporte como ator político e social. Ao longo dos 125 anos da história olímpica, foram raras as cenas como aquela ou as protagonizadas por Jesse Owens, um homem negro, também nascido nos EUA, que brilhou em Berlim, 1936, durante o regime nazista e racista de Adolf Hitler. Os contextos mudaram e, em 2021, a Olimpíada de Tóquio tende a ser um novo marco das lutas por igualdade.

Pressionado por atletas, ex-atletas e torcedores, o Comitê Olímpico Internacional (COI) mudou as normas sobre posicionamento político durante o evento. Originalmente, a Regra 50.2 da Carta Olímpica proibia expressamente qualquer manifestação política, religiosa ou racial nas instalações dos Jogos, sob pretexto de “preservar a neutralidade do esporte e da própria Olimpíada”. As alterações anunciadas dias antes da Cerimônia de Abertura ampliam — ainda que ligeiramente — as possibilidades de manifestação dos participantes a partir desta edição. Em partidas da primeira rodada, jogadoras das seleções de Chile, EUA, Grã-Bretanha, Nova Zelândia e Suécia se ajoelharam em protesto antirracista.

Posicionar-se está liberado durante entrevistas, reuniões, redes sociais e antes do início das competições (na apresentação dos atletas, por exemplo). No entanto, as novas diretrizes do COI mantêm o pódio como lugar “sagrado”. Durante a entrega de medalhas, execução de hinos nacionais e as Cerimônias de Abertura e Encerramento, todos continuam proibidos de se manifestar.

“Ao expressar suas opiniões, os atletas devem respeitar as leis aplicáveis, os valores olímpicos e os demais atletas. Deve-se reconhecer que qualquer comportamento e/ou expressão que constitua ou indique discriminação, ódio, hostilidade ou potencial para violência em qualquer base é contrário aos Princípios Fundamentais do Olimpismo”, explicou o COI. São vetadas, também, as manifestações consideradas “disruptivas” — feitas durante hinos nacionais de outros competidores, por exemplo.

As alterações em normas históricas foram feitas após uma consulta com 3,5 mil atletas de todos os esportes olímpicos. “Embora as diretrizes ofereçam novas oportunidades para os atletas se expressarem antes da competição, elas preservam as competições no campo de jogo, as cerimônias, as cerimônias de vitória e a Vila Olímpica. Esse foi o desejo da grande maioria dos atletas em nossa consulta global”, justificou a presidente da Comissão de Atletas do COI, Kirsty Coventry, aliada de longa data do presidente do órgão, Thomas Bach.

Boa parte da pressão para que as regras mudassem partiu do Comitê Olímpico dos EUA. Diante da crescente onda de manifestações políticas e sociais de atletas (como o movimento “Black Lives Matter”, “Vidas Pretas Importam” em português), os dirigentes estadunidenses anunciaram que não punirão atletas que se posicionarem durante os Jogos do Japão. A falta de mudanças maiores pelo COI chegou a causar incômodo em alguns esportistas, que podem desafiar as normas.

“Quando chegar lá, descobrirei o que fazer”, disse Gwen Barry, favorita a medalha no lançamento de martelo e ativista pela igualdade racial. “O que preciso fazer é falar por minha comunidade, representar minha comunidade e ajudar minha comunidade, porque ela é muito mais importante do que este esporte”.

Porém, ainda que tímidas, as mudanças devem abrir espaço para mais manifestações de atletas. Em Tóquio, temas como racismo, LGBTfobia, xenofobia, desigualdade de gênero e intolerância religiosa devem virar pauta frequente nos debates e nas competições por meio de ícones esportivos.