Sábado, 4 de dezembro de 2021

PALESTRA: Sobre a doença e a morte na visão Budista

Transcrição da palestra do monge budista Yogavacara Rahula no retiro ONLINE em 20 de Fevereiro na Casa de Dharam(SP)

Publicado em: 21/02/2021 às 09h32


Foram realizadas palestras, durante o retiro online, da Casa de Dharma, que é um centro de estudos e práticas budistas, da escola THERAVADA. Transcrevemos aqui a maior parte da primeira palestra proferida pelo Bhante (professor) Iogavaccara Rahula, monge budista que foi ordenado em 1975, e fez a palestra direto dos EUA.

Será que todos conhecem o ensino básico do Dharma (ensinamentos deixados por Buda)? Começa com os três refúgios, são eles: Buda, Dharma e o Sangha (praticantes do budismo) e também os cinco preceitos que devem ser observados. MOTIVO: Buda foi a única pessoa que soube explicar de forma racional as causas do sofrimento humano e da morte. Apenas o senhor Buda e o Dhamma conseguem explicar o ciclo de nascer, envelhecer, adoecer e depois morrer.

Se você vai ao médico por motivo de doença, todos vão prescrever o remédio, as vezes eles conseguem que ocorra a cura da doença e às vezes não. Quando estes pacientes vão ao médico pedem ao médico para não morrerem, que conseguem prolongar a vida um pouco, mas não evitam a morte de quem os procura. A morte ocorre devido ao nascimento. Como então evitar o nascimento?

O que acontece é que as pessoas ficam nesse ciclo de: nascer, crescer, viver, envelhecer e depois morrer. Os budistas acreditam em renascimento. Buda então conseguiu o remédio para escapar dessa situação de nascer, envelhecer, adoecer e morrer. Então essa é a ideia que vamos explorar.

Vamos investigar as causas e condições para superar essas enfermidades e em alguns casos também a morte. Essas coisas acontecem o tempo todo com as pessoas. As pessoas passam a vida sem se preocupar com as causas da doença e da morte, e se esquecem disso o tempo todo. Nós acabamos nos embaraçando nessa lei do karma (causas e efeitos sobre cada um a partir de suas ações). As vezes até antecipando a enfermidade e a morte também.

As pessoas gostariam de prolongar a vida, mas não tem jeito a morte chega para todos, e daí se perguntam: “Por que eu? Logo eu vou morrer?”. Nessa pandemia vemos o que está ocorrendo com as pessoas e muitas acabam morrendo de covid-19. Claro, há várias causas da morte, e a situação de onde vaio esta doença é complexa. Podemos evitar o contato com a doença, nos cuidando, usando máscaras, não indo a festas ou ao carnaval. Claro, há muitas pessoas teimosas que não seguem as regras e pegam a doença.

Essa é uma atitude inábil (não virtuosa) das pessoas que não seguem os princípios de se cuidarem e pegam a doença devido a causas e condições. A partir dos (cinco) preceitos budistas, que estão ligados às condições para compreender com atenção (sāti), o problema, e evitar que se tenha uma relação ruim com a doença e muitas vezes a morte.

O processo básico do ciclo de vidas (pois se nasce, vive e morre, e depois nasce vive-se e morre), muitas vezes algumas pessoas não chegam a envelhecer morrem antes de ficarem idosos. Algumas acumulam karma, adoecem e morrem. E daí repete-se o ciclo outra vez. Ocorrendo indefinidamente (chamado de saṃsāra), e sobre o nascer não há muito o que fazer, a doença e a morte, não sabemos quando irão acontecer, o que podemos fazer, é neste intervalo entre o nascer e o morrer, observar bem a Lei do Karma, para minimizar o sofrimento.

A Lei do Karma é muito importante. Toda a prática do Dhamma (ensinamento budista) tem a ver com a causa do envelhecimento e a morte, sempre baseada na lei do karma. A meditação que praticamos, com foco no corpo, para poder compreender o corpo e a sua morte, o que morre não é a pessoa, o que morre é o corpo. Por que a prática da meditação é centrada no corpo? Porque aqui com este corpo é que experienciamos o nascimento, o envelhecimento, a doença e a morte, que estão ligados ao nosso karma.

Por isso é importante compreender a morte, pois o desenvolvimento da mente está ligado a esse fato, de que um dia vamos morrer. É através desta mente que estamos criando karma, o tempo todo, um karma que se cria sem atenção do que fazemos (sāti), que vai influir diretamente nisso tudo.

A mente que comanda o nosso corpo é a responsável pela produção desse karma. Vamos então, na meditação, prestar atenção neste corpo e ver o que a mente faz e produz o tempo todo, por isso devemos observar quando praticamos a meditação. O primeiro nível da meditação é trazer a mente de modo que esteja em harmonia, com o corpo e com a própria mente. Para a maioria das pessoas a mente e o corpo fazem coisas diferentes, a mente faz pensar e o corpo outra coisa.

Elas podem estar sentadas acomodadas, mas a mente está pensando em outra coisa, que pode ser o passado ou o futuro, mas ela não está aqui é agora, no momento presente. A mente fica alternado entre o passado e o futuro, e assim ficamos desconectados com o corpo neste instante. Muitas vezes praticamos ações que prejudicam o nosso corpo, com ações inábeis (não virtuosas) que causam mal ao nosso próprio corpo.

Na meditação vamos usar as instruções, para conectar a mente e o corpo no momento presente, e isso ajuda a conectarmos de forma mais tangível com o corpo. A maioria das pessoas no momento da meditação, têm sono, preguiça, dores nas pernas, e também pensamentos. Por isso devemos fazer exercícios para evitar estes obstáculos que são as causas que atrapalham a meditação. Nossa meditação que faremos hoje será a meditação, guiada. Esta meditação tem o propósito de fazer a pessoa ficar conectada com seu corpo aqui e agora.

Buda disse que tudo que nasce está condicionado, e o que está condicionado (tem condições) a morrer. Isso ocorre com tudo que nasce, cresce, envelhece, adoece e morre. No geral o que precede a morte é o envelhecimento, doenças são características da vida condicionada e ninguém foge disto. O médico te dará várias causas para justificar a morte, e também diversas razões que levam alguém à morte prematura. Nos hospitais nos perguntam porque morremos.

Uma vez em São paulo, fui assistir uma autópsia, e vi muitos corpos abertos, cadáveres sendo cortados, e faziam para descobrir a causa da morte, que estavam as vezes associadas a muitos fatores, outros às vezes não. Às vezes não sabiam o motivo da morte, e escreviam no atestado de óbito, motivo ignorado. Os médicos podiam escrever nesses atestados, o motivo correto: o nascimento. Tudo que passamos nesta vida, envelhecimento e doenças, não passam de sinais da proximidade da morte. Segundo o Senhor Buda, nós morremos porque nascemos, simples assim.

Então existe até um ditado que diz: “A vida está condicionada à doença, a vida condicionada é fatal”. Quando a pessoa nasce, é certeza que passará por tudo isso que falamos. No entanto as pessoas são diferentes, e todas passarão por formas diferentes de nascer, crescer, envelhecer e morrer. O momento da chegada de uma doença que vai nos matar não se sabe e também a hora da morte não se sabe.

Como disse, os bebês podem morrer. Podem morrer até mesmo no útero da mãe. A partir do nascimento, o bebê pode morrer com um minuto de vida, com um dia, com um mês ou até mesmo com cem anos de idade. O tempo normal de vida das pessoas está ao redor de setenta e seis anos.

Para cada espécie de animal há um tempo médio de vida, os pesquisadores descobriram isso. Muitas pessoas passam dos setenta anos e outras não chegam aos setenta anos. Na verdade, quando você nasce você ganha uma passagem “só de ida”, é uma passagem gratuita que vai te levar ao cemitério ou ao crematório. As pessoas não gostam de pensar nisso. Outro ditado: “Não se sabe se haverá o amanhã ou se haverá a outra vida”, não sabemos oi que vai ocorrer primeiro. Muitas pessoas fazem planos, algumas conseguem realizar o planejado, outras não conseguem, pois morrem antes. Muita dessas pessoas podem “acordar” já mortas, ou seja acordar já na próxima vida.

Apesar de as doenças e a morte serem coisas certas, as causam são incertas, pois dependem de causas condicionantes. Quais são essas causas condicionantes? Essas causas são o lugar onde se nasce, se você nasce num local onde há guerra não é bom, mas se nasce num local sem guerra é bom. Depende também da família que você nasce, depende de sua genética que trouxe para essa vida.

Muito desses fatores está ligado ao karma anterior a essa vida, e esse karma anterior e o karma atual é que definirão a sua morte. Então devemos perguntar, de que este corpo é feito? Quando nos olhamos no espelho, olhamos vários aspectos do corpo, mas olhamos somente a parte externa, mas no interior, na parte de dentro, qualquer cientista diria que somos a soma de milhões de células, bilhões de moléculas, trilhões de átomos. E os átomos têm ainda partes menores que são os elétrons.

Em última análise, esses elementos do corpo estão interagindo entre si, e funcionando com base nessa interação entre todos esses elementos envolvidos. O que chamamos de “vida” são essas interações no corpo, o trabalho, a família e outras coisas que vemos. Na verdade a vida real é a interação entre as moléculas do corpo, que estão interagindo. É importante entender como nosso corpo funciona., para entender como ou quando vamos morrer, e esses elementos do corpo é que determinam quando morreremos.

Como vimos a primeira causa da morte é o nascimento. Qual então é a causa do nascimento?

O senhor Buda sua ampla sabedoria explicou que raiva, apego, ignorância e karma que envolve tudo isso são as causas do nascimento. Uma grande parte do que acontece, muitas pessoas não sabem devido à ignorância. Ignorância no sentido de desconhecer como as coisas funcionam. Devido a essa ignorância que fazemos coisas que muito nos prejudicam, até onde sabemos nosso corpo é um dos organismos mais complexos, sem saber é claro como os marcianos são!

Então vários de nossos sistemas interagem e se desenvolveram ao longo de tempo de forma espetacular. Inclusive o sistema imunológico foi o que mais se desenvolveu, para nos proteger de vírus, bactérias e das doenças em geral. A não ser que esteja sendo atacado por um novo patógeno, como é o caso deste vírus da pandemia ele não nos protege. Com esse vírus diferente temos que desenvolver vacinas para nossa proteção. Ao longo da vida adotamos diversos hábitos que enfraquecem nosso sistema imunológico, e os maus hábitos (comidas, bebidas, respirar errado, fumar, etc) acabam por enfraquecer a nossa natureza de defesa. E por pura ignorância, estamos assim como estamos.

Há uma separação entre a MENTE e o Corpo que temos, portanto este corpo e mente trabalham e habitam juntos, mas podem funcionar de forma separada. Na concepção, há a formação de uma primeira célula, depois se divide e formam duas e depois quatro e assim por diante. Elas vão se reproduzindo até formarem um corpo com bilhões e bilhões de células. Com a primeira célula, havia uma mente, que depois também se dividiu em duas mentes, e assim foi se dividindo também, de tal modo que no nascimento da criança, há um corpo e uma mente que está associada a cada célula do corpo.

Para se chegar a essa estrutura corporal, houve um gasto de energia muito grande, e a mente daquele ser estava presente o tempo todo e consciente do processo de formação no útero o tempo todo. Isso ocorreu até o momento do nascimento, onde corpo e Mente eram um só ser. Os psicólogos dizem que os bebês quando nascem têm a consciência oceânica, e que naquele momento não tem consciência do passado, nem do futuro.

Não distingue nada, não há memória nenhuma pelo menos ao nível de consciência. Logo que nasce as pessoas dão um nome, brincam com o bebê, as avós trazem presentes, beijam o bebê e os tios e avós pegam o bebê no colo. No início era a consciência ampla e oceânica, e depois começa haver uma consciência de um EU, e depois disso começamos a enxergar os limites da pele, onde para dentro é o EU e para fora são os outros. Chamamos isso de consciência DUAL. Depois de seis meses, ele começa a se conectar com coisas externas com percepção de: minha mãe, minha avó, minha comida, meu gato, e cada vez mais vê as coisas fora dele, e junto começa a noção de passado e de futuro, que começa a ser construída em sua mente.

A avó vem e traz chocolate, que ele aprecie e por associação, aprecia a avó que traz algo que ele gosta, como uma sensação agradável. O tio ou o avô pega a criança, mas não dá nada e ele tem uma sensação neutra, outro pega o bebê de qualquer jeito e ele tem uma sensação desagradável. Quando ele lembra da avó, vai lembrar de uma sensação agradável (o chocolate), e do tio ou avô uma sensação neutra ou desagradável. Neste instante começa a sensação de passado e de futuro. Começa também a linguagem do bebê.

Então sabores, aromas, odores diversos, sons farão com que o bebê tenha esperança de coisas agradáveis e de coisas desagradáveis no futuro. Assim dessa forma passado e futuro se estabelecem na mente, e daí desenvolve o apego, e ganância pelas coisas, e junto também desenvolve a aversão, medo e raiva do que pode lhe ocorrer no futuro. A maioria desses bebês começam a deseja coisas boas no futuro, e a ter medo, raiva de coisas ruins que possam ocorrer no futuro. Cada momento, cada objeto lembra o passado. Ou pode pela “esperança” um futuro, incerto. Nesse momento foi perdida a conexão com o momento presente. Daí ou é passado ou é futuro.

Com a perda dessa conexão somos levados a ganância e à raiva e assim a MENTE está desconectada do Corpo. Assim teremos apego a coisas agradáveis e raiva das coisas desagradáveis. Por exemplo, o ato de fumar. A pessoa vê com os colegas, com os amigos com os pais. E mesmo sabendo dos malefícios de fumar, os fumantes ficam apegados a sensação de prazer que o tabaco dá. Então nos vimos envolvidos pelos prazeres, e esse sentimento toma conta de você, sem perceber que ele te faz e fará mal.

Perdemos a percepção do que faz mal em nosso interior. Depois de algum tempo o fumante começa a tossir, cóf, cóf, e o corpo através da tosse, mostra que tem alguma coisa errada no organismo, é o primeiro sinal. Apesar de a pessoa não se sentir bem, ela continua a fumar, e o corpo vai reclamando mais e mais, e a mente diz: Pare e o corpo fica quieto sem responder. E continua a fumar e piorando mais.

Esse mesmo processo do cigarro, ocorre com outras coisas, tais como comida, bebida, músicas, produzindo as mesmas satisfações de serem coisas agradáveis. Daí se perdeu a conexão do corpo com a mente, está sem conectar. Quando uma pessoa está perdida ela precisa do endereço para localizar onde ela quer chegar. Precisa de um rumo ou direção para ir onde precisa. Quantas pessoas gostariam de viver numa casa limpa, grande, bonita e cheirosa. E outras vivem numa casa suja, desorganizada e não gostam dessa casa. Assim como a casa, é o mesmo com nosso corpo. O nosso corpo exterior é a manifestação do nosso interior. Muitas pessoas manipulam a aparência externa, mas não conseguem mudar a aparência interna, e a casa vai por água abaixo.

Com a prática da Meditação trazemos nossa Mente para se juntar novamente com o corpo, no aqui e agora, no momento presente. Trazemos a mente para colocar junto com o corpo e ficar em harmonia com os processos vitais interiores. Isso significa estar em contato como fluxo vital interno no momento presente. Esse é o início da reconexão com nosso corpo e também um processo curativo (autocura) para começar a melhorar em todos os aspectos. Esse é o processo inicial, e assim dessa forma sem ignorância podemos entender como e porque as doenças e a morte veem até nos, e da mesma forma entender o processo de cura do nosso organismo. Muito obrigado. (duvidas ou copias sobre este texto escreva para edmirterra@gmail.com)