Quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Como a Argentina se tornou um dos países com mais casos de covid-19 no mundo

Dados oficiais mostram que a pandemia no país nunca esteve tão grave quanto agora, quase oito meses depois de atingir a Argentina

Publicado em: 18/10/2020 às 08h35


Até o mês passado, a Argentina era um dos países com menos casos de coronavírus, segundo o levantamento da Universidade Johns Hopkins. Mas a situação mudou radicalmente desde então.

Em questão de dias, o país galgou várias posições no ranking e ultrapassou várias nações, como Espanha, México, Chile, Peru e Colômbia. Hoje, a Argentina é o quinto país com mais registros de coronavírus no mundo, com 949 mil, embora seja o 12º no total de óbitos, com 25,3 mil.

Em um discurso transmitido pela TV, o presidente Alberto Fernández disse que, apesar da curva de contágio na região metropolitana da capital Buenos Aires, que já chegou a concentrar 85% dos infectados, ter se estabilizado, o coronavírus "se espalhou por toda a Argentina".

O médico argentino Oscar Cingolani, professor da Johns Hopkins, destaca que a Argentina está hoje entre os países com os maiores índices de novos casos por milhão de habitantes. Ele ressalta ainda que a dinâmica da epidemia argentina foi diferente de outros países que hoje estão entre os mais afetados pelo coronavírus.

"Ao contrário do Brasil e dos Estados Unidos, a Argentina não teve um pico inicial", diz Congolani. "Agora, os casos estão caindo no Brasil, e na Argentina, observamos um crescimento lento e constante."

Quarentena nacional e obrigatória

Poucos dias após a confirmação do primeiro caso do novo coronavírus na Argentina, Fernández implementou, em 20 de março, uma quarentena nacional e obrigatória.

Também agrupou uma equipe de infectologistas e passou a falar quase semanalmente aos argentinos sobre a importância da prevenção da covid-19. O uso de máscaras foi logo popularizado e tornou-se raro ver alguém sem uma nas ruas do país.

O governo espalhou cartazes pedindo que as pessoas ficassem em casa, suspendeu voos domésticos e internacionais e restringiu o uso de transporte público, que passou a ser exclusivo de trabalhadores essenciais, como profissionais de saúde e funcionários de supermercados.

Nos primeiros meses, as medidas contaram com a adesão de grande parte da população. Governadores e prefeitos seguiram as orientações do presidente, mesmo aqueles que fazem oposição do seu governo. "A quarentena ajudou o país a reforçar seu sistema de saúde e a evitar várias mortes", Congolani.

Recordes de casos e mortes

Mas os dados oficiais mostram que a pandemia no país nunca esteve tão grave quanto agora, quase oito meses depois da pandemia atingir a Argentina. Na quinta-feira (15.10), foi registrado o maior número diário de novos casos: foram 17,09 mil. O recorde de mortes se deu e 8 de outubro, com 515 óbitos registrados em um único dia.

Um dos motivos para esse agravamento foi a propagação do coronavírus pelo interior do país, diz Omar Sued, presidente da Sociedade Argentina de Infectologia.

Até pouco tempo atrás, praticamente não havia casos da doença no interior. Mas a reabertura no início de setembro foi feita sem os mesmos protocolos de prevenção contra o vírus que foram aplicados na Cidade Autônoma de Buenos Aires, a capital do país, e na Província de Buenos Aires.

A falta de precaução tornou o interior um terreno fértil para o avanço da covid-19. "Hoje, a situação é delicada", diz Sued. No interior, as condições para a realização de testes de coronavírus são, muitas vezes, mais limitadas. A isso se soma o fato de as pessoas já estarem cansadas de cumprir o confinamento.

Para Sued, que faz parte da equipe de infectologistas que assessora a Presidência, outro fator que dificulta ainda mais o combate da epidemia agora é que os governadores da oposição já não demonstram a mesma disposição de agir em sintonia com as orientações sanitárias do governo federal. "Alguns estimulam até o uso de remédios que ainda não tiveram seu efeito comprovado", diz.