Quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Inflação brasileira em setembro é a maior em 17 anos

Alta do preço de alimentos, como arroz e óleo de soja, além de combustíveis, levou o IPCA a registrar elevação de 0,64% no mês passado, maior percentual para o mês desde 2003.

Publicado em: 11/10/2020 às 06h10


A inflação oficial de setembro veio forte, puxada pela alta dos preços dos alimentos e dos combustíveis, e surpreendeu o mercado, que passou a rever para cima as previsões para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2020 — chegando, em alguns casos, a 3%. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o IPCA subiu 0,64% em setembro, o maior resultado para o mês em 17 anos. Em setembro de 2003, o indicador teve variação de 0,78%.

O resultado ficou acima das projeções de mercado, cuja mediana estava em 0,54% e superou em quase três vezes a alta de 0,24% registrada em agosto. Brasília foi a capital com a segunda menor alta do IPCA, de 0,37%, à frente apenas de Salvador, que registrou inflação de 0,23%.

Ilustração

 

No ano, o IPCA subiu 1,34%, e, no acumulado em 12 meses até setembro, a inflação foi de 3,14%. Esses dados estão dentro da meta de inflação para este ano, de 4%, com piso de 2,5%, e, por conta disso, analistas mantiveram as previsões de que o Banco Central deverá manter a taxa básica de juros (Selic) em 2% ao ano até o fim de 2020.

Comida mais cara

Com alta de 2,28% — e o maior impacto no IPCA no mês passado, de 0,46 ponto percentual —, o grupo de alimentos e bebidas foi o principal influenciador da carestia de setembro, principalmente, pelas altas nos preços do óleo de soja, de 27,54%, e do arroz, de 17,98%, puxados pelo aumento da demanda e à valorização do dólar frente ao real. No ano, esses dois produtos subiram 51,30% e 40,69%, respectivamente. Transportes, por conta da elevação dos preços da gasolina, que não param de subir nas bombas, tiveram peso de 0,14 ponto percentual no IPCA de setembro.

Com o encarecimento dos alimentos, os brasileiros estão mudando hábitos. A diarista Rosa Maria Santos, 60 anos, contou que parou de comprar arroz e óleo esperando que o preço caia. “Quando um produto começa a subir muito, a gente tem que dar um basta para ver se volta (ao preço normal). Eu moro só e estou me virando, mas meu filho, que é casado, sentiu bastante. Ele me ligou e disse: ‘mãe, o trem está feio’.

Eu mesma parei de comer arroz, estou dando um tempo. Substituí por verduras”, desabafou. A porteira Luzinete Reis também cortou a quantidade de comida na mesa. “Minha família é um pouco grande, então eu tive que cortar algumas coisas. A carne subiu muito, o arroz, o feijão, o óleo, tudo”, disse.

Sem trégua


O economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), adiantou que a inflação não deverá dar trégua em outubro. Ele prevê o IPCA subindo de 0,80% a 0,90% neste mês, apesar de o Indicador Geral de Preços — Mercado (IGP-M), apresentar uma desaceleração nos primeiros 10 dias de outubro, na comparação com o mesmo período de setembro, passando de 4,41% para 1,97%. “Nossas coletas indicam IPCA de outubro bem alto, devido ao início da retomada do setor de serviços, que começa a pressionar preços, como passagens aéreas, compensando uma leve queda nos alimentos”, destacou Braz. Ele prevê elevação de 2,5% para o IPCA neste ano, mas com “viés de alta”.

As revisões para o IPCA do ano deram a largada assim que saiu o indicador do IBGE. Eduardo Velho, estrategista da JF Trust, por exemplo, elevou de 2,24% para 2,76%. O Itaú Unibanco revisou de 2,5% para 3% a projeção de inflação deste ano, incorporando a aceleração adicional no preço dos alimentos até dezembro. O banco estima alta de 0,63% no IPCA do mês que vem. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, elevou a previsão de 2,3% para 2,5% e prevê alta de 0,43% no IPCA de outubro.