Disputas ideológicas dificultam avanços maiores na Cultura e na Educação - Caarapó Online

Caarapó - MS, sábado, 24 de outubro de 2020


Disputas ideológicas dificultam avanços maiores na Cultura e na Educação

Briga por poder e trocas seguidas de integrantes fazem das pastas as mais problemáticas do governo. No ministério, as constantes polêmicas e os parcos resultados podem provocar a demissão de Abraham Weintraub

Publicado em: 13/12/2019 às 09h17

Correio Braziliense

A Secretaria Especial de Cultura e o Ministério da Educação estão envoltos em intenso fogo cruzado que, admitem interlocutores no próprio governo, pode resultar na queda dos ministros da Educação, Abraham Weintraub, e do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. A palavra final será do presidente Jair Bolsonaro, que, no momento, nega qualquer intenção de executar trocas nos comandos das duas pastas. Mas a tendência, segundo fontes ouvidas pelo Correio, é que as quedas de braço continuem acirradas.


O cabo de guerra na Secretaria Especial de Cultura, que está sob o guarda-chuva do Ministério do Turismo, é o motivo pelo qual assessores especulam uma possível queda de Álvaro Antônio. Nomeada para a Presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a arquiteta Luciana Rocha Féres teve a nomeação suspensa em menos de 24h. Indicada pelo ministro, ela entrou no lugar de Kátia Bogéa, que, dizem na pasta, não deve voltar ao posto.


A suspensão da nomeação é atribuída ao secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, que tentou emplacar o arquiteto Olav Schrader, ligado ao grupo do escritor Olavo de Carvalho, “guru” de Bolsonaro. O nome, no entanto, foi barrado, creditado a vetos da Casa Civil. A mudança no Iphan mostra, para técnicos na Cultura, a força do secretário. Mesmo tendo sido voto vencido na nomeação do jornalista Sérgio Camargo para a Fundação Palmares, a aposta é que ele continua prestigiado. Camargo, que definiu a escravidão como “benéfica para os descendentes”, teve, nesta quinta-feira (12.12), a nomeação suspensa por Bolsonaro.


Outra recente demonstração de vigor político de Alvim foi na exoneração da agora ex-titular da Secretaria do Audiovisual (SAv), Katiane de Fátima Gouvêa. Indicada por ele, os dois deram as cartas e comandaram o processo de reestruturação na pasta. Durante a transição da secretaria do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo, eram sempre vistos próximos, conversando. “Foi dela o relatório de ações para extinguir a Ancine (Agência Nacional do Cinema)”, disse um técnico. A decisão de Alvim foi tomada com base em um parecer do Ministério Público Eleitoral (MPE), que reprovou as contas de Katiane Gouvêa quando ela foi candidata a deputada federal, em 2018, pelo PSD.


O secretário de Cultura suspeitou de Katiane Gouvêa e quis evitar riscos. No lugar dela, assume André Sturm, ex-secretário de Cultura da cidade de São Paulo. Na pasta, a decisão foi associada à declaração desta quinta-feira (12/12) de Bolsonaro sobre corrupção no governo. “Se aparecer (corrupção), boto no pau de arara o ministro. Se ele tiver responsabilidade, obviamente, porque, às vezes, lá na ponta da linha, está um assessor fazendo besteira sem a gente saber. Não é isso? É obrigação nossa, é dever”, avisou.


A ala ideológica do governo que protege Alvim, ligada a Olavo de Carvalho, é a mesma que o fortalece em relação a Álvaro Antônio e que coloca uma pulga atrás da orelha de Weintraub. O secretário de Alfabetização do Ministério da Educação, Carlos Francisco Nadalim, é sócio do dono do site Brasil sem Medo, Arno Alcântara Junior, conforme informou o Estadão. O portal foi lançado por Olavo de Carvalho, que, por sua vez, ganhou espaço no horário nobre da TV Escola, canal ligado ao ministério.


O espaço dedicado ao sociólogo e as suspeitas envolvendo a influência de Nadalim no governo — sendo sócio da empresa Alcântara e Nadalim Cursos On-Line Ltda. — deixaram Bolsonaro desconfortável. Um interlocutor diz que o presidente vem sendo cobrado por líderes evangélicos e por partidos influentes, como o DEM, que tenta emplacar o ex-ministro Mendonça Filho na pasta. Detentora de R$ 117 bilhões, o segundo maior orçamento da Esplanada dos Ministérios — só perde para a Saúde, com R$ 123 bilhões —, a pasta é uma das mais cobiçadas.


Confusões diversas


O combate ao que o governo atribui como “marxismo cultural” é elogiado pelo governo, mas o excesso de polêmicas provocadas por Weintraub e a cobrança por mais resultados na pasta jogam contra o ministro. “O ministério está com contratos parados, e o ministro tem polemizado mais do que apresentado soluções para a política educacional”, ponderou um assessor.


Não é de agora que o Ministério da Educação e a Secretaria Especial de Cultura são dores de cabeça para o governo. Na condução da política educacional, não apenas Weintraub é o segundo a comandar a pasta, depois do educador Ricardo Vélez Rodríguez, como a Presidência do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) já teve quatro gestores. Ao longo do ano, assessores foram exonerados e continuam sendo — inclusive nomes de confiança do próprio Weintraub. Já a política cultural está, com Alvim, em sua terceira gestão.