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Caarapó - MS, sexta-feira, 23 de outubro de 2020


Mais forte que diamante: sem bolsas de pesquisa, sem exploração de grafeno

Pesquisas para o uso do derivado do grafite estão paralisadas por contenção na Capes. Material mais forte do que o diamante e potente condutor de eletricidade tem inúmeras aplicações na indústria, mas extração ainda é limitada

Publicado em: 30/09/2019 às 08h57

Maria Eduarda Cardim

Um material com espessura atômica, feito totalmente de carbono, mais forte que o diamante, mais resistente que o aço, um potente condutor de eletricidade e calor tem chamado a atenção de alguns países nos últimos anos. O grafeno, material derivado do grafite, possibilita a criação de uma nova cadeia industrial e, por isso, ganhou valor na agenda de governantes. O presidente da República Jair Bolsonaro não foge à regra e é considerado um entusiasta do material.


Mas apesar do interesse presidencial e de o Brasil, de acordo com o Ministério de Minas e Energia, estar em segundo lugar no ranking mundial de reservas de grafite — mineração ocorre no país desde 1939 — a exploração e uso do material esbarra no corte das bolsas de incentivo à pesquisa, que atingem pesquisas do grafeno.


Não é preciso ir longe para ver pesquisas que foram afetadas. Na Universidade de Brasília (UnB), quatro bolsas da Capes foram cortadas no mês passado. A informação é do coordenador do programa de pós-graduação e professor do Instituto de Química da universidade, Leonardo Paterno. Segundo ele, uma das bolsas pertence a um aluno que estuda as aplicações biomédicas do grafeno para tratamento do câncer. 


Leonardo Paterno acredita que o corte afeta diretamente o avanço das pesquisas do material e, com isso, o futuro da cadeia industrial do grafeno no Brasil. “O Brasil é avançado na pesquisa, mas precisa estar atualizado. O corte atinge a mão de obra, que são os alunos. O professor não vai para a bancada fazer a pesquisa, tem outras tarefas, quem vai fazer são os alunos e pesquisadores”, avalia.


Além disso, o fomento da pesquisa em si depende desse investimento. “A pesquisa em grafeno é barata comparado às outras, mas, ainda assim, eu preciso de dinheiro para comprar equipamentos e insumos”, afirma Leonardo. “A ciência é bem fundada e estabelecida no mundo e no Brasil, mas essa mão de obra precisa ser valorizada”, completa.


Qualidade 


Especialistas afirmam que a grande quantidade do minério encontrado no país não o faz sair na frente na produção de grafeno. “O grafite é comum no mundo inteiro, não é uma particularidade do Brasil. É um material democrático. O que difere é a qualidade do grafite, Dependendo de como é a geologia do local de extração, o material muda”, explica Castro Neto. A pasta de Minas e Energia afirma que no Brasil “ainda não foi alcançada solução tecnológica para produção em larga escala.


Segundo pesquisadores, o momento é crucial já que outros países têm investido na área. “O investimento na China e Europa tem sido grande, então, significa que os frutos virão em breve. Uma vez que a produção está desenvolvida, é difícil você entrar na briga, você entra atrasado. Não faz sentido reinventar a roda”, avalia pesquisador Antonio Castro Neto, fundador e diretor do Centro de Pesquisa em Grafeno da Universidade Nacional de Singapura.


O fundador da empresa 2DM, produtora de grafeno, explica que a indústria brasileira poderia se inserir na indústria do material com inúmeras possibilidades. Atualmente, o grafeno já é comercializado em alguns produtos. “O grafeno pode ter muitas aplicações. Vai desde reforçar outros materiais, como concretos, tintas, revestimentos, até aplicações mais tecnológicas na indústria eletrônica, como telas de celulares e painéis solares”, afirma.


Castro Neto afirma que uma nova cadeia industrial, antes inexistente, está sendo formada com a descoberta do material. “No Brasil, é possível se inserir ao longo de toda essa cadeia, desde a extração até a indústria eletrônica, têxtil e outras”, indica. Na exploração do grafite, que é a matéria-prima do material.

Produção


O primeiro pólo na produção do material está localizado em Minas Gerais. O projeto MGgrafeno, uma parceria da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (CODEMGE) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é a primeira planta piloto do Brasil para a produção de grafeno no país. O processo gera dois nanomateriais: o grafeno e as nanoplacas de grafeno.

O diretor do centro de pesquisa em Singapura esteve no Brasil no último mês com Konstantin Novoselov, vencedor do prêmio Nobel de Física de 2010 por ter isolado o grafeno. Os dois tiveram uma conversa com o presidente Jair Bolsonaro. Apesar de ter sido breve, Novoselov notou muita curiosidade do presidente no material e foi “entrevistado” pelo presidente, que fez muitas perguntas e tirou dúvidas.

Antes mesmo de assumir o mandato como chefe do Executivo, Bolsonaro já demonstrava interesse no material. Em discursos no plenário da Câmara dos Deputados ou nas redes sociais, Bolsonaro já falou sobre a exploração do grafeno como possível fonte de investimento no país. “A produção de uma bateria de grafeno, que poderá ser recarregada em poucos segundos. Imaginemos a revolução na indústria automobilística com esta bateria para os carros movidos a energia elétrica”, afirmou Bolsonaro quando ainda era deputado.

Em algumas citações sobre o material, o presidente atribuiu a falta de exploração do grafeno à existência do material em reservas indígenas. “No Brasil não existe terra rica que não exista também ali uma reserva indígena”, disse em um vídeo no qual fala do elemento.