BUDISMO - A generosidade em tempos de crise - Caarapó Online

Caarapó - MS, terça-feira, 2 de junho de 2020


BUDISMO - A generosidade em tempos de crise

Budismo - Como agir com generosidade em tempos de crise

Publicado em: 01/01/2019 às 10h07

Nalanda - MG - Maggacitta

De que maneira podemos praticar a generosidade em tempos de crise? Se em tempos de uma forte crise econômica, de escassez aguda, de inflação elevada, quando nos custa muito esticar o salário até o final do mês, quando apenas conseguimos levar a nossos lares alguns poucos produtos da cesta básica, o que podemos fazer para continuar sendo generosos e não morrer tentando? Se estamos imersos em uma situação de escassez que afeta a todos igualmente, como podemos dar a outros que se encontram em uma posição tão crítica como a nossa, ou talvez até pior?

O mais fácil é dizermos que se temos apenas o suficiente para nos alimentarmos e à nossa família seria muito difícil ajudar aos outros. E não faltaria razão a quem pensa dessa maneira, tendo uma família para sustentar. Temos razões suficientes para pensarmos em nós mesmos e em nossos entes queridos especialmente quando as circunstâncias se apresentam difíceis e aparece o conflito entre nosso próprio bem-estar e o dos demais.

O ser humano, apesar de ter uma inteligência que o torna diferente entre os animais, ainda possui instintos vitais que são ativados quando confrontado com alguma necessidade premente, de modo que, em primeiro lugar, busca assegurar a sua própria sobrevivência e a de sua família. Esse instinto de sobrevivência é o que permite ao ser humano cuidar de seu sustento e o de sua família, e da manutenção da vida.

No entanto, esse instinto de sobrevivência que torna o ser humano naturalmente egoísta, pareceria ter também como parte inerente do seu ser um tipo de instinto bondoso que o leva a estender a sua mão ao necessitado, independentemente de se esta é uma pessoa do seu círculo familiar ou uma pessoa desconhecida. Existem muitos casos de heroísmo nos quais as pessoas comuns, num ato de bondade espontânea, põem a sua vida em risco para salvaguardar uma pessoa desconhecida.

Somos sido testemunhas de acontecimentos em que algum herói anônimo arrisca sua vida por outra pessoa, e até por um animal, havendo quem morra intencionalmente. De que maneira poderemos então conciliar esse instinto natural de sobrevivência que poderia traduzir-se como uma forma de egoísmo instintivo – um tipo de egoísmo que não podemos criticar, já que o que está em jogo é a sua própria segurança e a de seus filhos, principalmente a destes últimos – com a prática da generosidade? Como fazer para que esse instinto vital de sobrevivência – que é reforçado com uma grave crise econômica ou de outra natureza – não neutralize a sensibilidade que é subjacente em cada ser humano de modo que a prática da generosidade seja uma constante em cada um de nós em todas as circunstâncias? A resposta está no amor incondicional e na compaixão, entendendo o amor como o desejo de que todos os seres possam ser felizes e a compaixão como o desejo de que todos os seres estejam livres do sofrimento.

Mas antes que esse amor e essa compaixão incondicional que constituem nossa verdadeira natureza, nossa essência pura ou natureza búddhica, floresçam em nós como uma flor de lótus quando floresce no meio de um lago lodoso, é mister começar a nos libertar de qualquer forma de apego ao eu. É esse apego a uma falsa identidade que nos impede de experimentar essa natureza e que origina todo o egoísmo que nubla nossos mais nobres ideais e que finalmente se traduzirá em sofrimento para nós mesmos. Se observarmos bem, muitos dos problemas que experimentamos em nossa vida cotidiana têm sua fonte em uma forma extrema de apego ao eu.

Quando nos sentimos mais importantes que os outros, de maneira natural somos indiferentes ao seu bem-estar, e se esse apego ao “eu” chega a níveis extremos, poderia acontecer de sermos indiferentes até mesmo ao bem-estar das pessoas que dizemos apreciar. Mas além disso, quando o ser humano está interessado somente na sua própria gratificação, não apenas será indiferente ante o sofrimento alheio como isso também será caldo de cultivo para a traição, o roubo e o crime.

À medida que vamos nos desligando da fantasia do ‘eu’, mais seremos capazes de abrir nossos corações e sermos empáticos com os outros e, com o passar do tempo e com a prática devida, essa natureza bondosa vai emergir, e não só seremos capazes de estar felizes com o bem-estar dos outros como também chegaremos a ser capazes de ver os outros como mais importantes que nós mesmos. Este é o ápice da generosidade, o altruísmo mais puro.

Mas o que fazer enquanto buscamos esse estado do mais puro e elevado altruísmo que de fato pode nos parecer tão distante? Que fazer enquanto nos liberamos das amarras desse eu que nos torna egoístas? Antes de responder a essas perguntas, há duas coisas que devemos considerar: a primeira que temos que entender é o assunto da interdependência dos seres no seu aspecto mais básico; isso significa que tudo o que temos, a comida que ingerimos, a roupa que utilizamos, a casa onde vivemos, a educação que temos e tudo aquilo com o qual de alguma maneira nos beneficiamos, é produto do trabalho e do suor de outros seres, na sua maioria desconhecidos; em segundo lugar, e como consequência da anterior, devemos compreender que sendo seres sociais, temos o dever moral de nos preocupar pelo bem-estar e a felicidade das outras pessoas, já que delas também depende nossa própria felicidade. Esses são dois elementos fundamentais que devemos ter sempre presente em nossa mente.

Então, as respostas às perguntas anteriores ficam solucionadas com a palavra “ambos”, quer dizer, enquanto não alcançamos esse estado de elevado altruísmo e não nos libertamos dessa falsa identidade que é o eu, ainda poderemos nos ocupar em trabalhar tanto por nosso próprio bem-estar e felicidade como pelo-bem estar e felicidade dos demais, sob o entendimento de que não há ninguém tão pobre que não possa dar algo alguma vez. Também é bom salientar que a generosidade não se remete só ao estritamente material mas ao emocional, quer dizer, uma pessoa pode ser generosa em carinho, atenção, paciência, sorrisos e palavras doces e esperançosas que dissipem o medo e a dúvida, que deem ânimo e consolo.

Todos desejamos ser felizes e estar livres de sofrimento, e é válido que procuremos um estado de bem-estar, mas se, ao buscar nossa própria felicidade, nos esquecemos que todos os demais seres também desejam ser felizes e os ignoramos, as consequências serão tristes e lamentáveis para nós.  Pode resultar extremamente difícil, para o ser humano, uma vida em completo isolamento, à margem de todo contato humano – até os animais possuem atitudes grupais; em um mundo cada vez mais globalizado, nós, seres humanos, ficamos mais dependentes uns dos outros. De tal maneira que as desvantagens de atitudes egocêntricas e as vantagens de trabalhar pelo bem-estar do próximo devem ser evidentes para todos. Por isso é muito importante tentar nos ajudar mutuamente e cultivar um sentimento de solidariedade em relação aos demais, para além de familiares e amigos. Este sentimento de solidariedade, de ajuda, de irmandade ante circunstâncias adversas é a semente da verdadeira compaixão, o desejo de que todos os seres estejam livres de todo sofrimento.

Mas além de aliviar o sofrimento temporário dos seres lhes oferecendo alimento, vestuário, calor, conforto, etc. é muito importante indicar-lhes o caminho que leva não ao alívio temporário do sofrimento, mas que conduz definitivamente ao fim do sofrimento. Esta é a grande generosidade, a generosidade mais sublime.

Como buddhistas devemos lembrar isso permanentemente, desta forma nos treinar no cultivo da grande compaixão. A compaixão é um aspecto fundamental do ensinamento do Buddha, mas independentemente de ser buddhista ou ser de qualquer outra religião, e mesmo para aqueles que não professam nenhuma religião, é necessário cultivar um espírito compassivo, pois isso é o que dá sentido à vida humana, de outra forma não nos diferenciaríamos muito dos animais.

A generosidade é a primeira perfeição (pāramitā ou paramī), o que indica que sem a prática da generosidade o cultivo das outras perfeições que nos apoiam até a realização da iluminação não será de muito benefício. Mas se não podemos praticar a generosidade na maneira que desejamos por conta de um estado de precariedade, devemos ao menos cultivar a aspiração de ajudar ao próximo; ao acordar pela manhã devemos elevar um sincero pensamento, um genuíno anseio para que todos os seres sejam libertos do sofrimento e das causas do sofrimento; ao nos deitar, dedicar, a todos os seres, os méritos derivados de nossas ações virtuosas do dia; e finalmente, temos a máxima das aspirações: que consigamos a iluminação ou alcancemos o estado de Buddha para o benefício de todos os seres. Mais que o ato físico de dar, a generosidade é um estado mental que procura o bem-estar dos demais, é uma mente virtuosa de dar.

Finalmente e, tomando a pergunta inicial deste artigo, de que maneira podemos praticar a generosidade em tempos de crise? Uma resposta que resume o que já expus é: praticando o Dhamma (ensinamentos deixados por Buddha). Diante da adversidade, mais Dhamma; quanto mais dificuldades tenhamos, mais Dhamma; diante da incerteza, mais Dhamma.

Assim, neste longo e sinuoso caminho andemos sempre sorridentes, retendo o Dhamma sob o entendimento de que a nobre verdade da cessação do sofrimento só é possível enquanto formor pródigos em bondade amorosa e compaixão para com todos os seres; e quando conseguimos que a mente possa descansar calmamente no topo de uma montanha enquanto vemos passar os acontecimentos como nuvens à distância.