Um Chamado para Consciência no século XXI - Caarapó Online

Caarapó - MS, terça-feira, 2 de junho de 2020


Um Chamado para Consciência no século XXI

O monge Theravada Bhikkhu Bodhi chama a atenção para a emergência de uma voz buddhista de consciência coletiva.

Publicado em: 22/09/2018 às 07h41

Nalanda ORG - BH

Em 3 de fevereiro de 2018, mais de 150 ativistas buddhistas se reuniram no Union Theological Seminary de Nova York para começar a criar uma coalisão dedicada a lutar por maior justiça social, cuidado com o meio ambiente e unidade humana. Em face dos muitos desafios de hoje, incluindo guerra, desigualdade de renda, pobreza persistente, racismo sistêmico e degradação ecológica, os organizadores convidaram os buddhistas de Nova York a se esforçarem por uma visão de paz “que se centra na justiça racial, social, de gênero e econômica, na proteção do vulnerável e na preservação de um meio ambiente natural viável”. As observações condensadas que se seguem foram dadas por Ven. Bhikkhu Bodhi ao final das deliberações do dia.

Há uma atitude generalizada entre buddhistas, especialmente buddhistas ocidentais, de que a política é uma arena a ser evitada, como se fosse um poço tóxico. Ela é vista como um desvio em nossa busca espiritual, uma distração e um emaranhado, uma queda em relação às nossas aspirações na direção da pureza, iluminação, despertar e libertação. Mas em face às múltiplas crises atuais, não podemos virar nossas costas. Sim, a política frequentemente é corrupta, suja e divisiva. Eleições e disputas em relação a assuntos políticos frequentemente são impulsionados pelo desejo sedento pelo poder ou pela ânsia de personalidades egocêntricas brilharem em destaque. Mas a política é também o campo onde grandes temas morais de nosso tempo estão sendo debatidos e decididos. A vergonha do racismo sistêmico, o tratamento aos imigrantes, a ruptura climática, a assistência médica, a guerra e o militarismo – todas essas crises se juntam em suas profundas e prementes dimensões morais no estágio da política nacional.

Por essa razão, se quisermos cumprir nossas responsabilidades éticas, não basta simplesmente adotar os preceitos buddhistas como guias para a conduta pessoal, viver uma vida de integridade moral e cultivar pensamentos de amorosidade e compaixão no conforto das nossas salas de meditação. É crucial para nós entrarmos na esfera da ação. Isso, necessariamente, não significa que devamos endossar candidatos, segui-los em sua campanha ou pertencer a partidos políticos. Mas, movidos pelos princípios de amorosidade e compaixão, por nosso compromisso com a justiça e a eqüidade, devemos nos apresentar e nos opor a instituições e sistemas opressivos e desafiar leis e políticas prejudiciais. Devemos nos esforçar para criarmos uma ordem social enraizada em uma visão moral, uma ordem que incorpore a amorosidade e a compaixão e que ofereça oportunidades para que todos floresçam.

Após a eleição de Donald Trump, a capelã buddhista da Universidade de Duke, Sumi Loundon Kim, perguntou se eu pensava ser a hora dos buddhistas formarem uma coalizão progressista para defender assuntos públicos a partir de um ponto de vista buddhista. Eu disse a ela que tal coalizão era, naquele momento, uma necessidade urgente. Na mesma época, o reverendo William Barber, co-diretor da Campanha pelos Pobres, reuniu assinaturas de 2500 clérigos em uma carta questionando o Congresso sobre os nomeados pelo gabinete de Trump. Havia muitos signatários cristãos, judeus e muçulmanos, mas só encontrei um buddhista na lista. Parece que, em uma situação tão crítica, os budistas estavam “desaparecidos em combate”.

Logo depois, Sumi e eu falamos para alguns outros ativistas buddhistas e mantivemos discussões sobre formar uma aliança buddhista nacional para assuntos públicos, mas achamos que não seria fácil mobilizar as pessoas em nível nacional. Portanto, decidimos que o melhor caminho para começar uma rede de ação social buddhista era operar primeiramente em nível local. Esperávamos que se pudéssemos criar poucos grupos locais ao redor do país, eles iriam eventualmente se conectar para formar uma coalizão nacional. O encontro de hoje no Union Theological Seminary marca o ponto de partida para um esforço que dará frutos no futuro.

Acho crucial que, como buddhistas, olhemos para as questões públicas a partir da perspectiva da consciência buddhista. Eu uso a palavra “consciência” no sentido de ideais morais, de compromissos morais, como uma lente por meio da qual examinamos os desafiadores problemas econômicos, sociais e políticos que encaramos como sociedade e nação. Começamos com uma avaliação crítica de nossos desafios, examinando suas redes subjacentes de causalidade e, então, formulamos uma visão alternativa do modo como as coisas deveriam ser ou de como sistemas e políticas deveriam ser transformados para corresponder às nossas convicções morais mais profundas e sinceras. Com tal visão em mente, podemos agir para traduzir nossas convicções em realidades.

É no campo político que essa transformação deve ter lugar. É aqui que decisões são feitas sobre quem terá assistência médica e quem será deixado de lado, quem receberá serviços sociais básicos e quem será deixado a cuidar de si próprios, sobre quem irá viver e sobre quem irá morrer. É aqui que orçamentos são elaborados tanto para direcionar fundos para escolas quanto para investir mais em novos sistemas de armamentos. É aqui que determinamos se fazemos a transição para energia limpa ou continuamos queimando combustíveis fósseis. Essas questões marcam uma crítica intersecção da moral e da política, e empurrá-las de lado é, a meu ver, renegar nossas responsabilidades morais como seguidores do caminho da compaixão ilimitada de Buddha.

A palavra que eu vejo que melhor define nossa atual necessidade é solidariedade. Solidariedade significa uma profunda identificação com aqueles que enfrentam perseguição, opressão e marginalização, com quem diariamente luta contra a diminuição ou a negação de sua humanidade. Vemos tais tendências aqui nos Estados Unidos no sistema criminal de justiça com sua violência policial, tiroteios frenéticos e encarceramento em massa de negros; no deter e deportar de imigrantes, ao detrimento de suas famílias; em leis cruéis que forçam pessoas ao desabrigo e à fome; em políticas de impostos que podem bem resultar em algumas 13 milhões de pessoas perdendo seus acessos mesmo a assistência medica mínima.

Essa marginalização ou desumanização das pessoas não está ocorrendo somente em nosso próprio solo, mas também ao redor do mundo. Mesmo que coloquemos a atenção em questões locais ou nacionais, temos também que entender as ramificações globais da política dos Estados Unidos. O militarismo descontrolado ocorre por décadas desde administrações anteriores, incluindo ambos os grandes partidos políticos. Nossas políticas, apesar de envolvidas com a embalagem de boas intenções, apesar de estampadas com o elogio da liberdade e justiça para todos, têm muito frequentemente levado morte e miséria para centenas de milhares de pessoas pelo mundo.

Para dar um exemplo, a alguns dias atrás li um artigo no site de notícias online The Intercept sobre um ataque dos Estados Unidos feito com drone contra um grupo de agricultores afegãos que havia se deslocado para uma cidade próxima para comprar mantimentos. Eles estavam em seu caminho de volta em uma van alugada. O ataque matou 14 pessoas. Somente uma garotinha, de 4 anos de idade, sobreviveu. No ataque ela perdeu seus pais, seu irmão mais novo e outros parentes, e agora ela deve encarar o resto de sua vida sem sua família próxima. Imagine como nós nos sentiríamos se algo assim acontecesse a nós ou a nossas próprias famílias. Mas porque aconteceu em um lugar distante de nós, com pessoas de pele escura e sem nome do outro lado do mundo, nós dificilmente ouvimos sobre isso nos jornais ou na grande mídia.

Contudo, eventos dessa natureza deveriam incitar nossa consciência e nos mover para agir juntos, para transformar nossas políticas locais, nacionais e globais. Devemos nos empenhar para criar um mundo baseado na realização de que cada ser humano tem dignidade inerente. Devemos desenvolver uma agenda política que reconheça que todas as pessoas têm direito de viver em segurança, descobrir suas necessidades físicas básicas, exercer seus potenciais e perseguir os objetivos que dão valor às suas vidas.

O encontro de hoje poderia ser considerado o ponto de partida para o surgimento de uma voz de consciência coletiva buddhista – uma compaixão conscienciosa, por meio da qual nossa consciência interna responda ao amplo sofrimento do mundo. Nas semanas e meses vindouros, devemos continuar o trabalho que se iniciou aqui hoje. Como buddhistas, temos muito a oferecer. Devemos contribuir com claros insights, ferramentas contemplativas diferenciadas e convicções morais persuasivas na tarefa de transformação e edificação de nossa sociedade e de nosso mundo. Devemos unir corações e mentes – uns com os outros, com aqueles de outras crenças e com aqueles de orientação secular – a fim de fazer surgir uma forma de mundo que corresponda às nossas mais profundas aspirações morais.


Ven. Bhikkhu Bodhi vive e ensina no Mosteiro Chuang Yen, em Carmel, New York. Ele 
é tradutor de textos do Cânone Pāli e cofundador do Buddhist Global Relief.