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Cesar Christian: Literatura no Ensino Médio!? Pra quê?

Cesar Christian é Professor de Língua Portuguesa e Literatura no Instituto Libera Limes

Publicado em: 19/02/2017 às 05h39

Opinião

Muito se falou nos últimos dias sobre a decisão da SED-MS de retirar do currículo do ensino médio, das escolas estaduais, a disciplina de literatura, sendo que esta teoricamente será condensada com o ensino de Língua Portuguesa. Houve muita reclamação por parte dos professores, coordenadores e diretores, porém nenhuma ação efetiva por parte dos interessados foi encaminhada à referida secretaria. Os sindicatos, não são instrumentos exclusivos para que as categorias solicitem aumentos, eles também podem ser utilizados para fazer chegar ao poder público os pleitos dos educadores no tocante à grade curricular de seus discentes, tendo em vista que a construção do currículo é política, e, é claro demonstra relações de poder.

Talvez pelo mesmo motivo que Platão recomendou que os poetas fossem expulsos da cidade ou simplesmente por pura ignorância do que representa a literatura para a pessoa humana, a decisão, de maneira unilateral, já foi tomada e em 2017 a literatura estará fora da grade curricular das escolas públicas estaduais. A hipótese da pura ignorância talvez seja a mais palpável, a literatura não pode ser só um instrumento para o ensino da gramática. A condensação da literatura com Língua Portuguesa reflete um grande despreparo técnico da SED. Ora, se literatura tivesse que ser condensada com outra disciplina, que fosse então com Artes, pois o texto literário despido de seu valor artístico, ou ainda servindo simplesmente de pretexto para ensinar gramática, realmente, é totalmente desnecessário o seu estudo, pois para ensinar gramática pode-se usar textos jornalísticos de bons jornais e revistas.

Mas, afinal de contas, por que estudar literatura? O questionamento não é por que ler literatura, e sim por que estudá-la. Pode-se ler literatura simplesmente pelo prazer estético que um belo poema proporciona. É certo que o artefato literário, embora não tenha nenhuma utilidade prática, possui um determinado valor, que é atribuído quando as pessoas passam a “perder” o seu tempo lendo algo, mesmo que isso não tenha nenhum efeito prático em sua vida. Diferentemente de ferramentas que têm valor prático mas, que não são objetos de contemplação. O valor da obra literária deve-se ao fato de que ela tem a capacidade de mexer com as emoções do ser humano, a literatura ajuda ampliar a capacidade do ser humano de pensar abstrato, o que o diferencia dos outros animais.

Tratando-se de ensino público, os educadores envolvidos e seus sindicatos, não podem omitir-se em relação ao acontecido, pois essa decisão unilateral terá consequências funestas na formação do futuro cidadão do Mato Grosso do Sul, o próximo passo talvez seja retirar do currículo a sociologia, filosofia e as artes (todas essas disciplinas subversivas), para que em breve tenha-se uma geração de walkers vagando sem destino pelo pantanal, preocupados apenas com as necessidades mais básicas do ser vivo. Mas vale lembrar a todos que, apesar de serem futuros mortos vivos, eles terão título de eleitor.