A Crônica: Ícaro, Ulysses e Teori… - Caarapó Online



A Crônica: Ícaro, Ulysses e Teori…

Publicado em: 05/02/2017 às 10h33

Andrea Donadon leal - ABNNews

Foto: ABNNews

Mariana — 2017 se descortina dando pancadas e golpes contínuos. Prevejo um ano com mais pacotes de desgraças desenfreadas. Não é 2016 que não quer acabar, é 2017 que vem com mais fôlego e velocidade, com desejo inconteste de ser Cavaleiro do Apocalipse, deixando um rastro de fumaça tóxica pelos ares. 2016 não vai ser páreo para o ano que se despontou, mostrando para o que veio. Acredito nesta suposta premissa. Não, não tivemos tempo para digerir os últimos acontecimentos macabros do sistema prisional brasileiro e já estamos caindo pelos ares. Definitivamente caindo num mar de águas salgadas e purulentas. Hoje, o Brasil foi insuperável, pois acho que talvez estejamos chegando ao patamar de países com capacidade invulgar de se construir, desconstruindo, num processo contínuo pavoroso: dois passos pra frente, dois passos pra trás… Dois pontos tecidos, dois pontos desmanchados; e assim sucessivamente, sem deixar que alguma coisa evolua.

As imagens dos corpos decapitados já se tornaram distantes e meio apagadas em nossas mentes, como se cada desgraça se engalfinhasse com a outra, para ter mais notoriedade e divulgação na mídia. Quem pode com este país? Quem pode acompanhar a velocidade astronômica de coisas espúrias surgindo aos borbotões? Quem é capaz de se construir desconstruindo com tanta agilidade pérfida? Não sei! Talvez os ‘homens de ferro ou Penélope, esposa de Ulisses’. Volto a frisar que estamos carentes de amparos divinos! Esta construção infinita de um Brasil que se desconstrói diariamente, lembrou-me Penélope, que tecia de dia, desconstruindo todo seu trabalho à noite, num ardil insuperável, para ludibriar seus pretendentes, que a aguardavam terminar o sudário, para se casar, novamente. Qual pretendente Penélope escolheria, para ocupar o lugar do marido sumido na Guerra de Troia? Ninguém! Sem querer contrariar o pai e ser desleal com Ulisses, Penélope foi insuperável se enovelando numa teia de mentiras.

Hoje, o Brasil foi mais insuperável que Penélope! Insuperável, esta é a única palavra que me vem à cabeça. Não tenho outro vocábulo para definir o que se abateu nos mares de Paraty! Caímos! Caímos num ardil insuperável? Tragédia (?) ceifou a vida de uma figura responsável pela investigação dos políticos mais graduados do Brasil! Que obra do destino ou do acaso veio a calhar, para atrasar a ‘delação do fim do mundo’! O que poderia ter feito o ministro Teori Zavascki, feito Ícaro, interromper a tranquilidade de suas férias, saindo do aconchego do seu lar, para voltar a trabalhar no processo da Operação Lava Jato? Aproximação de fevereiro, mês para se oficializar ou não as delações com centenas de políticos? Novos indícios para reforçar a investigação? Quem poderia saber de alguma coisa de um Ministro que demonstrava discrição inabalável? O ‘tempo’, ‘o mau tempo se aproximando’, que corroborou para o acidente ocorrido com a aeronave? Já preveniram, e essa notícia é mais velha do que a república, que em Paraty tudo é mais complicado: a visibilidade é muito pior com o mau tempo. Lá também não tem torre de controle, nem estação meteorológica. Lembro-me do acidente em que desapareceu, sem deixar rastro, Ulysses Guimarães. Foi nos mares atlânticos, também… Que nuvem negra espessa se infiltrou no céu de Ulysses, de fato? A baixa visibilidade, pois ainda é muito cedo para fazer suposições ou achismos, sobre as causas do acidente…

Quem pode com este país? Quem poderá com a Operação Lavo Jato? Quem será capaz de parar a engrenagem da máquina, que se constrói se desconstruindo com tanta agilidade pérfida? Os homens de ferro? Não! Penélope? Não! Apesar de seu forte potencial de engendramento para passar por tempos difíceis, ela já foi superada por este país.

Ainda é cedo, muito cedo para teatralizarmos as teorias das conspirações! Ainda é cedo, muito cedo para falar em substituições, redistribuições dos processos! Precisamos deixar os ânimos recobrarem capacidade de reflexão! Com o recuperar-se de trauma pós-perplexidade? Precisamos de tempo para processar a morte do Ministro! Precisamos de tempo para lamentar perda irreparável. Precisamos chorar junto com o povo brasileiro! Precisamos de tempo para investigar. Precisamos dar tempo ao tempo! Fazendo, desfazendo, tal qual Penélope, quem sabe seja possível combater os perversos seres que derrubam Ícaros; quem sabe fazendo, desfazendo, consigamos aprender a acertar, um dia!

Andreia Aparecida Silva Donadon Leal – Deia Leal é Mestre em Letras – Estudos Literários pela UFViçosa. Diretora de Projetos Culturais da Aldrava Letras e Artes.