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CAARAPÓ - MS, sábado, 27 de novembro de 2021


Sem reformas, Paulo Guedes da Economia, vê prestígio ruir e perde força no governo

Dólar acima dos R$ 5, inflação de dois dígitos nos últimos 12 meses e desemprego alto minam o prestígio do ministro da Economia, que terá que ir ao Congresso para explicar as contas mantidas em paraíso fiscal

Publicado em: 11/10/2021 às 06h39

Israel Medeiros

Em 2018, a certeza de muitos de que o fiasco no crescimento econômico do principal país da América do Sul era culpa dos governos Lula e Dilma foi um dos principais motivos que levaram o economista Paulo Guedes a um status de celebridade na incomum campanha eleitoral do então candidato à Presidência, Jair Bolsonaro. Com perfil liberal, virou uma espécie de guru na área econômica, o que lhe conferiu o status de “Posto Ipiranga”.

As tão esperadas respostas para a economia e prometidas por Guedes, tais como as reformas administrativa e tributária e privatizações de grandes estatais, no entanto, não vieram. Há exceções, como é o caso da Previdência Social, que teve seu caminho pavimentado no governo Temer (MDB), e a Eletrobras. Ainda durante a campanha, Guedes fugia de perguntas sobre quem daria a palavra final na economia: se seria Bolsonaro ou ele.

Depois de um crescimento tímido do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, no primeiro ano de governo e a chegada da pandemia no ano seguinte, Guedes passou de superministro a superempregado. Guedes jurava que a economia decolaria em 2020. Não decolou. A União teve de gastar com o controle da pandemia e Bolsonaro vendeu a alma ao centrão em troca de sobrevivência política e da aprovação de projetos de seu interesse. A agenda de reformas e privatizações ficou para trás e só foi retomada em 2021.

A situação, agora, é diferente da de 2019: inflação de dois dígitos em 12 meses (10,25%) — algo que não se via desde a implementação do Plano Real, em 1994, dólar estacionado acima dos R$ 5 e 14,4 milhões de desempregados. Resultados que, para especialistas, são em boa parte resultados de uma política econômica desastrada e que gera desconfiança.

Para se manter no governo, o ministro seguiu as orientações de seu chefe e deixou de lado vários de seus posicionamentos. “Isso fez com que todo aquele pensamento liberal fosse colocado de lado e a nossa economia ficasse à deriva”, explica Otto Nogami, professor de economia do Insper, que acredita que o governo poderia ter adotado políticas mais inteligentes para evitar uma crise econômica tão grave, como uma política de abastecimento que segurasse os preços dos alimentos.

Guedes, vale lembrar, já criticou o dólar baixo, ao dizer que, com a moeda americana custando R$ 1,80, até empregadas domésticas estavam indo à Disney. Não foi a única vez que ele fez falas parecidas. Nogami explica que a lógica por trás do dólar alto tem beneficiários bem definidos: investidores estrangeiros e o setor agropecuário. “O dólar alto é proveitoso para o país porque à medida que nossa exportação fica barata, nosso produto fica barato no cenário internacional. Favorece o setor agropecuário. E outro detalhe interessante é a atratividade do país para investimento estrangeiro direto, porque à medida que tem desvalorização, com o dólar, o investidor acaba ganhando mais”, disse.

O problema da pressão no câmbio, explica Nogami, é que os insumos para o setor produtivo no país ficam mais caros. A própria alta do dólar é motivada, segundo ele, pela grave crise política que o país enfrenta, o que afasta investidores. Portanto, para ele, “o tiro saiu pela culatra”. Ele cita que até os empresários — que antes viam Guedes com bons olhos — agora estão “irritadíssimos” com a omissão da Economia para conter a alta do dólar.

Na última semana, os interesses de Guedes em um dólar mais caro viraram tema de debate, já que o megavazamento Pandora Papers revelou que tanto ele quanto o presidente do Banco Central (responsável pela regulação do sistema monetário, com direta influência no câmbio), Roberto Campos Neto, têm offshores no exterior. Só com a valorização do dólar, Guedes teria ganho cerca de R$ 15 milhões.

A revelação foi a gota d’água para que aliados do governo que já estavam insatisfeitos com Paulo Guedes passassem a exercer maior pressão na tentativa de descredibilizá-lo. A Câmara aprovou, na última quarta-feira, a convocação do ministro para explicar seus investimentos no exterior – que ele afirmou que são legais e estão declarados à Receita. A convocação teve apoio de 310 dos 513 deputados.