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Caarapó - MS, segunda-feira, 18 de janeiro de 2021


Região Sul do Brasil encontra a face mais dura da pandemia desde seu início

Região que tinha a seu favor um sistema de saúde mais forte, e onde o vírus demorou mais a ganhar força, agora tem hospitais lotados, fila de espera por UTI e dificuldade para contratar profissionais de saúde

Publicado em: 23/12/2020 às 08h13

Beatriz Juca

Quando a pandemia do novo coronavírus começou a se espalhar pelo Brasil no início do ano, a região Sul parecia ter armas privilegiadas para contê-la. Tinha sistemas de saúde mais fortes diante da conjuntura de desigualdade que assola o país e via a pandemia crescer de forma mais lenta. Governantes impuserem restrições para frear contágios e ter tempo de preparar o sistema de saúde. Enquanto ampliavam leitos hospitalares, a curva de novos casos ainda seguiu achatada até o início de junho, na contramão da maioria das regiões do Brasil.

Depois disso, o país demonstrou um breve arrefecimento da pandemia, mas agora observa uma nova alta, que tem um certo protagonismo do Sul. Juntos, os três Estados que formam a região são responsáveis por um terço de todos os novos casos registrados no Brasil durante a última semana epidemiológica ―que vai de 13 a 19 de dezembro. Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina também concentram 26% das mortes registradas neste período, segundo dados do Ministério da Saúde.

O índice de contágio no Sul do Brasil chegou a ser o maior do país em novembro (1,8) e conseguiu reduzir a 0,95 no dia 13 de dezembro, a data mais recente do monitoramento do Info Traker, ferramenta que acompanha o avanço dos casos de covid-19 no país. Este índice indica uma possível desaceleração de novos contágios, mas na prática a região vive uma situação complicada ―com hospitais lotados, fila por uma UTI em alguns locais e dificuldade de contratar mais profissionais de saúde para ampliar a assistência. De região menos afetada pelo coronavírus, foi a uma das mais preocupantes e agora vive situação tão grave como em outros locais do país. Dados da mesma ferramenta apontam que o Sul tem o maior tempo médio de resolução de casos de hospitalizados do país, de 20 dias, assim como o Nordeste.

O Paraná tem sentido uma forte pressão da covid-19 sobre seu sistema de Saúde. Na última semana, a população do noroeste do Estado viu os leitos atingirem sua capacidade máxima e se criar uma fila de espera para receber cuidados intensivos. O Estado até suspendeu a desativação de leitos de UTI específicos para o tratamento da doença no mês passado, mas ainda assim tem uma taxa de ocupação de 89%. Em Curitiba, a capital, esta taxa sobe para mais de 90%. E há problemas para ampliar a assistência. Na região oeste do Estado, respiradores e monitores ficaram parados por conta de dificuldades para contratar profissionais de saúde.

O Paraná é o Estado que apresentou os piores indicadores da região na última semana: somou 44.567 novos casos e 507 mortes por covid-19. O Governo estadual trabalha para ampliar leitos antes da temporada do verão, e o governador Ratinho Júnior (PSD) tem feito apelos para que a população colabore com o distanciamento social. Há uma forte preocupação com os festejos de Réveillon. No ano passado, somente Guaratuba, Matinhos e Pontal do Paraná ―no litoral paranaense― reuniram juntas mais de 2,5 milhões de pessoas nas festas da virada. Nesta terça (22), o Governo de São Paulo estabeleceu que a cidade de Presidente Prudente ―próxima ao norte do Paraná― retome à fase mais restritiva da quarentena. Diante da subida de casos e da escassez de leitos hospitalares, só serviços essenciais estão liberados na região.

O Rio Grande do Sul, que tem uma população semelhante ―também em torno de 11 milhões de habitantes, como o Paraná― também vê os casos de covid-19 acelerarem. Com 29.008 novas infecções e 485 óbitos na última semana, o Estado está com 81% dos leitos de UTI ocupados. E 96% da população está em elevado risco de contágio, em localidades na bandeira vermelha das medidas de distanciamento social. A capital Porto Alegre, com cerca de 90% de lotação de leitos de UTI, se preparava para o risco de ver seu sistema de saúde colapsar em janeiro, mas, diante da velocidade de contágio, prevê que o esgotamento pode chegar antes. Porto Alegre até conseguiu reativar cerca de 60 leitos nas últimas semanas, mas enfrenta problemas para continuar a ampliação diante da dificuldade de contratação das equipes de saúde. Como alternativa, estuda ampliar restrições ao comércio na semana do Natal.

Santa Catarina, cuja população é de cerca de 7 milhões de pessoas, também vivencia a alta de casos de coronavírus. O sistema de saúde sofre uma pressão preocupante: 87,6% dos leitos de UTI do SUS estão ocupados. Ainda assim, as medidas restritivas foram afrouxadas nesta semana. Das 16 regiões do Estado, 15 estão classificadas como em risco gravíssimo para a doença. Mas mesmo assim cinemas, eventos com público e congressos passaram a ser permitidos, ainda que com o máximo de 30% do público. Hotéis podem operar com 100% de sua capacidade, apesar dos números.

“O Governo de Santa Catarina está atento ao sentimento dos catarinenses e à luta por um equilíbrio entre o enfrentamento da pandemia e o bem-estar socioeconômico”, argumentou em nota a gestão estadual, que considerou a presença de turistas no Estado uma “realidade inexorável, para a qual não se pode fechar os olhos”. O caso foi parar na Justiça, que deu 48h, a partir desta terça, para que o Estado amplie as restrições e suspenda a permissão para 100% da ocupação hoteleira. Em caso de descumprimento da decisão judicial, sofrerá pena de multa diária no valor de 10.000 reais.

O litoral catarinense, que tradicionalmente vê suas praias lotarem de turistas para as festas de Réveillon, teve seus shows musicais e pirotécnicos cancelados pelos prefeitos ― é o caso, por exemplo, das festas da virada em Florianópolis e Balneário Camboriú. Com o início do verão, o cenário observado no litoral catarinense tem sido o de praias cheias, apesar dos altos índices da pandemia. A ocupação da UTI para covid-19 do Hospital Municipal Ruth Cardoso, de Balneário Camboriú, está acima de 90%. Na região metropolitana de Florianópolis, a taxa de ocupação dos leitos de UTI do SUS é de 81,3%. A capital catarinense chegou a ficar quase um mês sem registrar nenhuma morte por covid-19 em maio, mas agora sente a pressão da pandemia. Para tentar conter o avanço do vírus, a prefeitura tem intensificado o trabalho de triagem a turistas.