'É como estar numa prisão', diz brasileira após 40 países fecharem fronteiras - Caarapó Online

Caarapó - MS, terça-feira, 9 de março de 2021


'É como estar numa prisão', diz brasileira após 40 países fecharem fronteiras

'Estou na minha casa. Há 10 meses, eu não sei o que é Londres', diz publicitária brasileira que vive há 7 anos na cidade

Publicado em: 22/12/2020 às 07h06

Ricardo Senra

A publicitária paulista Thais R. mora em Londres há 7 anos e nunca se sentiu isolada vivendo em uma das capitais mais cosmopolitas do planeta. Até 2020. "As pessoas falam: 'Ah, mas você está em Londres'", conta a brasileira, citando conversas sobre as dificuldades da pandemia com amigos e parentes que vivem no Brasi "E eu respondo: 'Não, não estou! Eu estou na minha casa'. Há 10 meses, eu não sei o que é Londres."

Desde o último fim de semana, este incômodo alimentado por meses de idas e vindas de medidas mais ou menos restritivas como resposta ao novo coronavírus ganhou novas definições no lar da brasileira. "Claustrofobia", "bloqueio", "isolamento", "prisão". À BBC News, ela diz obedecer às regras de isolamento social conforme elas são anunciadas pelo governo.

Londres passou por 3 níveis distintos de restrições nas últimas semanas — da imposição de consumo de alimentos junto a bebidas em pubs, no mais leve, ao fechamento total do comércio. Desde o início da pandemia, a brasileira, que trabalha em uma agência de marketing inglesa, tem trabalhado de casa. Quando sai, opta por lugares abertos.

"Sair eu até saio, mas não é como era antes. Eu vou a parques, mas a vida aqui é mais do que isso", diz a paulista de 34 anos nascida em Suzano. Em uma conferência de imprensa extraordinária no último sábado (19), o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou que uma nova variante do coronavírus, 70% mais transmissível que o vírus original, se espalha aceleradamente em diferentes partes do país.

No domingo, o secretário de Saúde Matt Hancock disse que a mutação do vírus está "fora de controle". Na segunda feira (21.12), até o fechamento da reportagem, mais de 40 países haviam decidido fechar as portas para viajantes vindo do Reino Unido, em uma tentativa de conter a expansão da ainda pouco conhecida nova variante do vírus.

"Agora, a sensação é como estar numa prisão", diz Bragheroli à reportagem. Pela segunda vez, ela teve que cancelar planos de visitar a família no Brasil. "Aqui em Londres, eu sempre tive a facilidade de, se fosse preciso, pegar um avião a qualquer momento e ir para o Brasil. Ou ir para qualquer parte da Europa", lembra a brasileira.

"Agora eu sinto um isolamento. E também tem o Brexit e toda essa indefinição. É uma coisa em cima da outra, as pessoas até ligam para saber como estou. Esse é o problema de estar em uma ilha", diz.

Sim, além de lidar com a nova variedade do vírus e hospitais ficando cheios em velocidade recorde, o Reino Unido ainda enfrenta a possibilidade de não haver consenso com líderes europeus nas negociações sobre a saída do país da União Europeia.

Se não houver um acordo comercial até o próximo dia 31, a possibilidade de altas recordes de preços e escassez de alimentos, uma retração econômica ainda maior que a gerada pela pandemia e restrições a viagens para a Europa já era objeto de manchetes alarmantes e falas sobre caos ao noticiário britânico.

No parlamento britânico, há discussões sobre a decisão, que já foi postergada diversas vezes, poder ser novamente cancelada e ficar para o ano que vem em meio à escalada da pandemia no Reino Unido. Um dia antes de anunciar a mutação do vírus, Boris Johson citou dificuldades "sérias" nas negociações para um acordo comercial pós-Brexit, após telefonema com a chefe da Comissão da UE, Ursula von der Leyen.

Ele disse que "o tempo era curto" e que um cenário sem acordo era "muito provável", a menos que a posição da União Europeia recuasse. De outro lado, Von der Leyen disse que seria "muito desafiador" superar as "grandes diferenças" existentes entre os dois lados.

No domingo à noite, a França fechou completamente sua fronteira marítima com o Reino Unido por 48 horas. Apesar das dificuldades de circulação, a brasileira diz entender e apoia as medidas.

"Acho que é necessário. Se eu fosse algum outro país, eu tomaria uma decisão parecida, até que se entenda o que é essa nova variante", diz a publicitária. "Eu não ia querer que isso estivesse se espalhando por aí, e é por isso que estão fechando o país."

O governo francês disse que estabelecerá um protocolo "para garantir que o movimento do Reino Unido seja retomado". Já os Estados membros da União Europeia estão reunidos em Bruxelas para discutir uma resposta coordenada, com autoridades sugerindo que uma exigência de testes poderia ser imposta a todas as pessoas que chegam do Reino Unido.