Imunidade de Rebanho: 'Não existe essa tal proteção', diz médico infectologista - Caarapó Online

Caarapó - MS, quarta-feira, 21 de outubro de 2020


Imunidade de Rebanho: 'Não existe essa tal proteção', diz médico infectologista

José David Urbaéz declarou que o conceito está sendo utilizado erroneamente no enfrentamento à pandemia, e que isso expõe a população a mais riscos

Publicado em: 02/10/2020 às 08h54

Correio Braziliense

Na esteira de outros profissionais, o diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, José David Urbaéz, declarou que o conceito de imunidade de rebanho está sendo usado de maneira inadequada no enfrentamento à pandemia. Em entrevista ao CB.Saúde — parceria do Correio com a TV Brasília — desta quinta-feira (1º/10), o médico criticou a forma como o parâmetro da imunização coletiva sem que haja uma vacina vem sendo usado enquanto política pública contra a covid-19.

Ao ser perguntado sobre a recente declaração do governador Ibaneis Rocha (MDB) sobre a chance de o Distrito Federal estar alcançado a imunidade de rebanho, Urbaéz foi taxativo: “Não existe essa tal proteção”. O pesquisador emendou com o comentário sobre uma pesquisa da UnB que indica que 20% dos moradores da capital federal já tiveram contato com o novo coronavírus.

“Talvez a cifra da UnB possa ser mais próxima da população, ou talvez a gente tenha uma cifra até maior em outro cenário. O mais importante é nós reconhecermos que os seres humanos têm comportamentos muito diferentes. Isso faz com que, quando você fale de proteção ou de imunidade, você tenha que falar de heterogeneidade”, ressaltou.


Pandemia é heterogênea


Para que fique claro à população o que é essa incidência heterogênea do vírus, o infectologista citou exemplos de dois cenários distintos. “A oportunidade do vírus se transmitir é muito maior em uma pessoa que mora em um local distante, na periferia, onde ela tem que se submeter a um transporte público com pessoas aglomeradas, esse transporte público demora duas, três horas, para chegar no ponto de destino e ela está dentro de uma habitação onde não tem suficiente espaço vital para manter o distanciamento mínimo de dois metros”, desenhou.

No outro extremo, estaria alguém que tem acesso a mais recursos de proteção. “Quando você fala de uma outra pessoa que tem carro particular, um apartamento espaçoso onde moram duas pessoas, onde ele ou ela trabalha em teletrabalho, é muito simples você perceber que o risco desse teletrabalho em um apartamento espaçoso, com carro particular, e desse outro indivíduo é absolutamente diferente”, comparou.


Desigualdade e comportamento do vírus


Urbaéz ainda afirmou que essa é a principal causa de pessoas com vivências diversas estarem expostas de maneiras desiguais à pandemia. “A circulação do vírus não acontece de maneira homogênea, não é todo mundo que se expõe ao vírus da mesma forma. Por isso que não se pode falar de rebanho”, pontuou.

“O mundo é desigualíssimo. Nunca na história da humanidade o mundo foi tão desigual do ponto de vista socioeconômico. As diferenças ficam escancaradas e essas diferenças fazem com que a pandemia não seja igual para todos e, no quesito de transmissão, isso é óbvio. Então, você não pode dizer que nós estamos protegidos por que em algum segmento dessa população você tenha obtido altas taxas de sorologia positiva”, colocou.

O caso de Manaus (AM), onde alguns estudos apontam que o índice de infectados entre a população chega a mais de 60%, foi lembrado pelo pesquisador. Ele diz que, apesar disso, a capital do Amazonas está vivendo agora um novo surto da doença.


Imunidade coletiva só existe com vacina


Antes de falara dos exemplos práticos, Urbaéz já havia explicado que a imunidade de rebanho, ou coletiva, só pode ser observada enquanto um fenômeno decorrente da vacinação em massa. “Esse é um termo muito da vacinologia. Desde que nós tivemos a vacina como um instrumento de controle de doença infecciosa, têm cálculos que se fazem a partir da transmissibilidade de cada agente e, dessa forma, você consegue enxergar um verdadeiro rebanho, ou seja, um número de pessoas que você deve vacinar para que não aconteça mais a transmissão daquele agente infeccioso”, detalhou.

Para ele, a utilização do termo como política pública para combater a pandemia é um desvio do conceito original e causa desinformação, além de expor a população a riscos. “Hoje a gente tem tido uma situação atípica, onde esse termo de imunidade de rebanho, que a gente chama mais de imunidade coletiva, imunidade de grupo, ele está sendo extrapolado para o efeito que tem a infecção natural dentro de grupos populacionais em territórios definidos. Cidades, países, continentes. E isso traz uma enorme confusão porque, desde o momento em que você acredita que isso possa ser uma política pública, você entra em uma seara extremamente perigosa, de risco”, concluiu.

O que é IMUNIDADE DE REBANHO

A imunidade de rebanho (também chamada de efeito de rebanho, imunidade da comunidade, imunidade da população ou imunidade social) é uma forma de proteção indireta contra doenças infecciosas que ocorre quando uma porcentagem suficiente de uma população se tornou imune a uma infecção, seja por vacinação ou infecções anteriores, reduzindo assim a probabilidade de infecção para indivíduos sem imunidade.

É improvável que indivíduos imunes contribuam para a transmissão de doenças, interrompendo cadeias de infecção, o que interrompe ou retarda a propagação da doença. Quanto maior a proporção de indivíduos imunes em uma comunidade, menor a probabilidade de que indivíduos não imunes entrem em contato com um indivíduo infeccioso.

Os indivíduos podem se tornar imunes ao se recuperar de uma infecção anterior ou por meio da vacinação. Alguns indivíduos não podem se tornar imunes devido a condições médicas, como imunodeficiência ou imunossupressão, e para esse grupo a imunidade de rebanho é um método crucial de proteção.