Ameaçado de extinção, filhote de macaco sauim-de-coleira nasce no zoológico - Caarapó Online

Caarapó - MS, segunda-feira, 25 de maio de 2020


Ameaçado de extinção, filhote de macaco sauim-de-coleira nasce no zoológico

Um filhotinho nascido em Brasília chegou para aumentar a população ameaçada

Publicado em: 17/05/2020 às 06h55

Erika Manhatys

O sauim-de-coleira ou Saguinus Bicolor, um primata cuja curiosa coloração bipartida entre o branco e marrom é destacada pelo nome, é uma das espécies criticamente ameaçadas. Esse é o último estágio antes de serem declaradas extintas. Apesar do cenário pessimista, há esperança para o pequenino animal amazônico. No último dia 6, um filhotinho nasceu no Zoológico de Brasília e ajudou a aumentar a comprometida população.

Ainda não se sabe se o bebezinho é macho ou fêmea, a descoberta promete demorar mais alguns meses. “O filhote de primata nasce muito dependente dos pais e, na nossa política de bem-estar, deixamos ele com cuidado exclusivo dos pais até completar quatro ou seis meses de vida. A partir desse tempo, fazemos a intervenção para avaliar o filhote”, explica o diretor de mamíferos da Fundação Jardim Zoológico de Brasília, Filipe Reis.

A espécie é considerada endêmica na Amazônia, o que significa que é exclusiva de um determinado local. E o sauim-de-coleira é natural de uma região bem delimitada, a parte metropolitana de Manaus. Esse fator de proximidade com a área urbana é a razão para a ameaça de extinção, conforme alerta Filipe. “O crescimento da cidade está empurrando os animais para outras áreas e eles acabam perdendo o seu espaço. Existem cerca de 46 mil indivíduos na natureza, mas contam com uma taxa de diminuição bem alta. É provável que nas próximas décadas ele seja extinto”.

Bebê nas costas

O primatinha é fruto de uma reprodução assistida de proteção da espécie. “Esta é a segunda geração que nasceu aqui conosco. A primeira foi em abril de 2018 e, agora, recebemos uma fêmea de Manaus que pariu dois filhotes neste mês. Um deles, foi natimorto, o que é comum ocorrer até na natureza. Neste primeiro momento, avaliamos a distância, vemos que ele está pendurado nas costas ou abdômen dos pais, se está sendo amamentado. Parece estar bem saudável”, conta o funcionário do zoológico.

As atribuições com o amparo do novo integrante é tarefa democraticamente compartilhada. Dá até para fazer trocadilho com os animaizinhos, o papai sauim é bem cuidadoso. Ele acompanha ativamente dos cuidados com o filhote, segundo Filipe Reis. “A gente até brinca que os humanos deveriam seguir o exemplo destes animais. De modo geral, os pais primatas dividem a responsabilidade com as mães, mas o sauim apresenta essa característica superpresente”.

Para receber o novo bichinho e manter a família sauim saudável, o Zoológico teve de criar um ambiente propício para a espécie. “Há muitas diferenças entre os climas, sobretudo, na questão da umidade. Então, cercamos o recinto com vidro e construímos um lago. No período da seca, usamos aspersores de água para fornecer melhor qualidade de vida. Além disso, fazemos exames periódicos em todos os animais cuidados aqui”, diz Filipe.

Preocupação com a Ecologia

A preservação das espécies e a conservação do meio ambiente são pautas prioritárias do Zoológico, junto a outras 40 instituições nacionais e internacionais. Todas contam com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Um dos braços da parceria é o Acordo de Cooperação Técnica, que ajudou nos esforços para o nascimento do novo bichinho.

A Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (Azab) é uma das entidades envolvidas no desenvolvimento de práticas conservacionistas. Ana Raquel Gomes, diretora da organização, explica o acordo de cooperação técnica entre a Azab e o ICMBio. “Hoje, trabalhamos com 25 espécies de animais que sofrem risco de extinção, a ação conta com a parceira de zoos e outras instituições mantenedoras. Estamos em constante troca de informação entre as participantes sobre a saúde e estado de cada uma das espécies contempladas”.

Para garantir a efetividade do trabalho, todos os detalhes são levados em consideração. As ações meticulosas do grupo começam lá no habitat dos bichos. “Os pesquisadores de campo estudam o desenvolvimento da espécie e analisa todas as mudanças ocorridas naquela população. As instituições catalogam todas as características e, por meio de banco de dados, a gente checa e avalia até as condições genéticas dos indivíduos resgatados. Assim, podemos verificar onde estão os animais mais compatíveis para reproduzir”, elucida Ana Raquel.

A diretora alerta que a integração é fator essencial para o sucesso dos esforços dos profissionais envolvidos. “No caso do sauim, a degradação da espécie ocorre devido à perda de ambiente, a ação humana está caracterizada neste problema. Nós, seres humanos, causamos essa situação, mas somos nós que podemos fazer esse jogo virar”.

O Pró-Espécies existe há dois anos, depois do acordo firmado entre a Azab e o ICMBio, em abril de 2018. “O novo filhote é uma conquista e uma alegria. Existem cerca de 30 animais sob os cuidados das instituições participantes e, para alcançar uma população de segurança, é importante que esse número cresça 10 vezes. São necessários, pelo menos, 300 indivíduos saudáveis para começar a fase de revigoramento populacional (reinserção do bicho à natureza)”, diz Ana Raquel.